Um jovem artista preambulava pelo mercado a procura do instrumento para sua próxima obra.
Cansara-se dos pincéis e procurava algo diferente. Obteve péssimos resultados utilizando diz de cêra. Além de despertar a ira das professoras de escolinha. Agora, com a nova tentativa, pretendia começar devagar: com papel, uma tela quem sabe. Deixaria de pintar muros por um tempo.
Enquanto analisava os diferentes lápis e suas propriedades, o velho boticário o abordou. Todos diziam que era louco e que, portanto, era melhor não contrariar.
- Está procurando por isso? – Com ar de triunfo, o boticário abriu a palma da mão, onde jazia uma caneta antiga.
- Não, obrigado. Eu sou pintor, preciso de algo que me ajude a colorir. – Evitava olhar nos olhos dele, quando lembrou o conselho da mãe. “Meu filho, não vá pelo caminho da floresta, vá pelo caminho do lago. E, lembre-se, não contrarie velhos boticários”. Ele já havia atravessado a floresta, sido perseguido por lobos, e salvado uma jovem de vermelho de velho um lobo malvado. Agora, com a mãe morta, sentia que devia seguir seu último conselho. – Está bem. – Decidiu com relutância. Deixe-me experimentar a caneta.
O velho entregou-lhe a caneta, com que ele assinou no primeiro pedaço de papel que viu sobre o balcão da papelaria. A figura do velho, magra, corcunda e engilhada, também pesou em sua decisão.
- Não funciona! – Irritou-se o artista.
Sorrindo, o velho aproximou-se com sua cabeleira branca desgrenhada. – Não funciona por que ela é mágica. Só funciona para se escrever coisas úteis. Roubou furtivamente um cheque do talão contido no bolso do rapaz e o apoiou sobre o balcão da papelaria. – Assine aqui.
Sem pensar muito, com a pressa de o velho ir embora, o pintor assinou o cheque. E o traço foi da caneta saiu limpíssimo e de um azul muito escuro.
Antes que o rapaz refletisse sobre o que se passara, o velho boticário já havia puxado o cheque pra si e sumido, deixando apenas a caneta.
Ao chegar em casa, o rapaz não podia estimar o valor que a caneta custara, posto que o sábio boticário poderia usar seu cheque como bem entendesse.
Conformado, resolvera usar a caneta em pelo menos uma obra.
Debruçou-se sobre o papel e principiou a rabiscar. Várias formas surgiram sobre o papel, em toda a sorte dos tons de azul, já que a caneta falhava quando ele queria suavidade, e funcionava quando ele precisava de traços fortes.
Muitas outras obras foram produzidas com a caneta que só escrevia coisas úteis.
Sua primeira exposição foi um sucesso, fotógrafos e artistas ilustres vieram prestigiá-lo e, em breve, email com suas obras eram enviadas como corrente para todas as partes do mundo, e ele não era famoso apenas na Europa, mas em todo o ocidente.
A rainha da Inglaterra viera lhe visitar. Ela recebera um spam que continha “Peixinhos Dourados”, uma de suas primeiras obras com a caneta mágica.
Após avaliar cada quadro, a rainha perguntou por sua esposa e, ao saber que era sozinho, retrucou: – Um homem precisa de uma companheira com quem compartilhar seu sucesso. Pense nisso. – E ao concluir, se retirou.
Concatenando sobre as palavras da rainha, Joshua – nosso pintor até agora anônimo – decidiu sair em busca da esposa perfeita. Numa manhã de domingo, perfurmou-se antes de sair de casa e, ao abrir a porta, deparou-se com Cleménce, a filha do açougueiro pendurava as roupas no varal, do outro lado da rua. Era perfeita! Casaram-se na segunda-feira. Em sua noite de núpcias, Cleménce pediu que ele a desenhasse nua, como num lindo filme sobre um navio, que ela vira na sessão da tarde.
Joshua achou essa proposta muito cliché, mas, não podendo declinar aos desejos de sua dama, obedeceu, revelando à esposa o segredo da caneta mágica.
O segredo agora seria compartilhado com sua esposa, tal como a glória e o prestígio. Cleménce ficou encantada com a caneta, e jurou segredo eterno.
Acontece que Cleménce tinha uma amiga, Bárbara, com quem assistira ao filme, e pra quem precisou mostrar o desenho, e revelar o mistério da caneta.
Bárbara precisava contar para a prima Berta, que contou para a cunhada, Tina, que contou para a manicure, que contou para as colegas Lice e Carol, que contaram, respectivamente, para a mãe e para o namorado.
A mãe de Lice, maravilhada, contou para toda a família.
O namorado de Carol pouco se interessou.
Lice tinha uma família grande.
Cedo, outra corrente de emails circulou pelo globo, dessa vez delatando o segredo de Joshua Baudin.
As pessoas ficaram injuriadas pela farse de Joshua, que descobriu ter sido desmascarado quando a rainha em pessoa fora a seu atelier para lhe dar um tapa. Madonna e Dalai Lama tiveram a mesma reação.
Arruinado, Joshua estava prestes a dar uma surra na Dalila que o esperava em casa. Antes, porém, de chegar à casa, parou para apreciar a confusão que tomava forma em frente a um estádio. Era ano de olimpíadas, que a França sediava, e o estádio estava cercado de pessoas do mundo inteiro.
Ele nunca fora a favor de trazer as olimpíadas para sua cidade - Pensou, enquanto apreciava o arranca-rabos. Foi quando ouviu uma voz conhecida.
O velho Boticário estava discursando em frente ao estádio, e, portanto, com total cobertura da BBC e da CNN.
"O Rapaz Joshua Baudin, conhecido pela sua caneta mágica e obras de arte abstrata, não é o mal-caráter charlatão descrito no email que recebi ontem à noite em meu gmail. Mas sim, um jovem artista muito talentoso que só precisou de um conto de magia, para dar início à sua carreira promissora. Há anos que tento vender aquela caneta. Quando o vi, sabia que ela lhe serviria, ainda que falhosa. E graças a ele, agora eu posso descansar em paz." – Dizendo isso, o velho sacou sua passagem para o Hawaí, compradas com o cheque de Baudin.
Desfeito o mal-entendido, Joshua fora convidado para várias exposições de arte, a maioria patrocinada pela Google. Não tivera tempo de se irritar com o velho pois, pensando bem, ele fora de grande ajuda. A tinta da caneta acabou, mas a carreira de Joshua estava só começando.
p.s: Cleménce não apanhou, mas foi morar com Bárbara, a única que a perdoôu após a confusão.
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