Certa vez, um pastor encontrou, escondido numa gruta, o Livre-arbítrio. Até ali, tudo o que ele tinha feito era vagar pela terra, desempenhando a sua função na sociedade, como lhe foi designado, e temendo aos deuses do Olimpo, como não podia deixar de ser. De posse do livro-arbítrio, decidiu - e essa foi sua primeira decisão - entrega-lo à humanidade. Distribuindo-o igualmente, em forma de liberdade. A humanidade, de posse dele, fez – e essa foi a sua primeira reação - coisas muito ruins. Com base no poder e na força, destruiu a igualdade que residia em seus lares, a ganância e a violência são algumas consequências. E para castigar a humanidade, Hera* a privou, por tempo indeterminado, da razão de viver. A deusa Atena foi completamente afastada dos seres humanos, por achar a decisão de Hera cruel demais. Mas não resistindo a tentar lhes contar o segredo, deixou uma mensagem no ventre de cada mulher. De modo que toda criança traga consigo uma inspiração da Deusa. E assim nasceu o porquê. A humanidade, para recuperar seu sentido, precisa restabelecer a igualdade adormecida e aniquilar os novos monstros que aprisionam nossa consciência: a Ignorância, a Dúvida e o Vazio. O porquê é a única arma que temos na luta pra resgatar o Sentido, perdido no espaço.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
A Conta
A conta é um objeto miúdo, redondo, colorido ou não, bonito sempre, definido pelo dicionário por “miçanga”, mas o dicionário não entende nada de contas.
Essa era ousada, a que estava na minha mão. Olhou-me meio ladina, me destratou, não gostei dela, não. Foi pro chão. Foi lá que ela começou a girar, e o brilho dela foi ficando mais intenso, e estava claramente irritada, mas eu não aceito provocação. Com a ponta fina do escarpam dei-lhe um leve toque, um empurrãozinho, e a conta voou para a escada, e ela girava enquanto o fazia, queria me desfilar suas acrobacias, penso que fiz até mal em dá-la tanta liberdade.
Chegando à escada, aí que a pequena me espantou. Ensaiou um pulo rumo ao andar de baixo, voltando, amedrontada – aposto. Agora ela girava em torno de si e em torno do nada que precedia a escada, estando na iminência de cair por várias vezes, unicamente para que eu me assustasse. A Conta pensa que eu ia sentir-me mal por tê-la chutado, ai conta miserável, pois eu queria era ver a queda. Ajoelhei perto da escada e assisti – visão aérea – ao espetáculo da conta saltitante, que começando a ficar oscilante, decidiu por saltar de vez.
E foi um salto mortal, daquele de ginasta em olimpíada, que solta um “ó” da platéia que, no caso, era eu – de boca entreaberta. Por isso que conta não participa de competição! Sempre tive essa curiosidade, e mamãe nunca soube responder. Deu cada cambalhota rumo ao degrau seguinte que eu cheguei a me arrepiar. E conta não morre, não? Não tem dor de cabeça, não sente enjôo de rodar assim? Porque eu me rendo logo, mais às dores do que à morte, felizmente.
A seqüência de arcos que ela descreveu no ar, eu não sei descrever no papel, mas posso afirmar que foram muitas e muito graciosas. Meus olhos as descreveram ao mesmo tempo, não desgrudavam da tal da continha. Fato que eu não percebi na hora, mas que deduzi por fim, é que eu me levantei e fui descendo a escada ao passo – ao salto – da Conta, porque quando ela concluiu sua apresentação, eu já estava lá na sala, vendo-a girar pelo chão até bater no rodapé e rodopiar em direção ao espelho. O que foi mais um de seus saltinhos, como é que um rodapé ia atirar uma conta sobre a penteadeira da sala?
O que sei é que ela chegou lá, e olhou-se pálida, perolada, e desequilibrada. Pareceu um passo falso, e ela tornou a cair. Aí sim, ela me olhou mais expressiva, era o sonho da Conta, coitada, e eu pensando que ela era desaforada mesmo, só queria atenção e espaço pra ter seu próprio espetáculo descrito de forma sucinta e prática, mas memorável. E na queda ela terminou de me embasbacar, e girou e caiu e quebrou e fez tudo o que uma conta não faz por um conto.
N.A: A autora nunca dialogou qualquer ser inanimado, parece gozar das perfeitas faculdades mentais e, particularmente, não gosta de contas.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Sophie
Ficava dentro de uma casa, como não podia deixar de ser. Uma casa de taipa, cuja madeira pintada de azul encontrava-se descascada e corroída pela traça do tempo. A sala era pequena e entupida de sofás, onde nobre cavalheiros como eu esperavam a própria vez. Ou a minha vez. Quem sabe se eu caísse morto e desistisse… Mas a sala já havia sido atravessa, tal como o corredor estreito, de onde ouvia-se a gota de chuva socar as telhas e beijar suavemente as janelas. Uma senhora de boca de peixe e que cheirava a perfume francês falsificado me guiou até sua porta. E das frestas já saiam luzes rosa-avermelhadas. Sophie abriu a porta silenciosa, e moveu-a lentamente, para que eu me adaptasse ao ambiente que surgia na minha frente, tão distante da madeira azul e das gotas de chuva. As paredes cor-de-rosa seriam mais claras não fossem os lenços que envolviam o lustre, formando feixes de luz róseos, rubros e alaranjados. Estes coloriam a mobília e os lençóis da maior cama que eu já vi. “Um cliente por vez, hein?”. Mas nem cor nem móvel daquele quarto me tiraria a atenção de Sophie. Dos seus olhos grandes e escuros, tão infantis que te levam a perguntar o que ela faz nessa vida. Seus cabelos eram negros, ainda assim mais claros que os olhos. Com certo volume e comprimento até a cintura, emolduravam uma escultura de mármore. tão branca e bem talhada que mais parecia a própria Afrodite, coberta de seda japonesa, para nos afogar em curiosidade. Ao passo que dei para dentro do quarto, exibiu um sorriso tímido num semblante triste. Por mais cativado que estivesse por seus olhos de menina, maior era a certeza de que, se essa era a vida dela, nunca mais gastei dinheiro tão bem empregado!
quinta-feira, 10 de abril de 2008
Hanna em Heatherfield [Witch]
Sawyer sem Twain
Era tão óbvio. Final de quadribol, Grifinória x Sonserina, nem Alice, que não nutria qualquer interesse pelo esporte, seria capaz de esquecer. Chegando à sala comunal, também não encontrou ninguém. Tentou, por fim, a biblioteca, mas estava encontrava-se fechada para a partida de quadribol. Inacreditável. I-na-cre-di-tável. Odiando Madame Pince, a garota seguiu para o estádio. O tempo de veraneio dispensava agasalhos adicionais, e ela não precisou voltar ao dormitório antes de deixar o castelo. Procurou um lugar para sentar-se, o que foi um pouco complicado, uma vez que o estádio estava dividido entre sonserinos e grifinórios, e Alice malmente se encaixava entre os outros Corvinais.. Acomodou-se numa cadeira no exato limiar, entre as torcidas grifinória e sonserina, de onde julgou que teria completa visualização do jogo.
Como se isso importasse... Alice não entendia nada do esporte e continuaria sem entender mesmo que fosse jogado em câmera lenta! A partida ainda não havia começado, pelo menos isso, ela foi capaz de notar. Mas os jogadores já se dirigiam para o gramado com suas vassouras, e a narração começara.
Sawyer acordou cedo naquele dia, seria a sua primeira partida de quadribol como capitão. Teriam que enfrentar a Grifinória, o melhor time da escola depois da Sonserina, sempre dizia o garoto. Sawyer já jogava no time desde o 3º ano, logo, não era o jogo que o deixava nervoso, adorava quadribol, e principalmente, adorava a sua posição de apanhador. Ganharam no ano retrasado, no ano que o garoto entrou no time, mas perderam no ano passado, ano em que James Potter se tornou capitão. Haviam cinco anos que a Grifinória e a Sonserina pareciam se revesar na vitória da copa. Esse ano era da Sonserina. E seu novo capitão era Sawyer. Não seria apenas uma partida de quadribol, seria A partida de quadribol. Seria Sawyer contra James, apanhador contra apanhador, capitão contra capitão. Ele sabia que tinham que vencer, e que do outro lado do castelo, o capitão da grifinória estaria pensando a mesma coisa, imaginando que tinha que ganhar de Sawyer. Depois do café reforçado que o garoto fez todos os jogadores tomarem, e das provocações habituais com os marotos e demais grifinórios, era hora do jogo. da vitória de Sonserina. da vitória de Sawyer. Passaram o plano de jogo mais uma vez, antes de começar. Para vencer a grifinória era necessário toda a habilidade dos batedores, agilidade dos artilheiros, concentração do goleiro e muita velocidade do apanhador, Sawyer. Seu plano para vencer James era animar muito o garoto, deixa-lo confiante, pois quando estava por demais confiante fazia muitas acrobacias e se desconcentrava um pouco do jogo. Essa era a brecha. Era hora de entrar todos se encaminharam ao campo, foi um misto de vivas e vaias, como sempre e uma garota negra narrava o jogo - Começa o jogo! Sonserina sai com a goles. Os artilheiros da sonserina faziam acrobacias e se revesavam com a goles, exibindo-se, Sawyer não aguentou: Hei! será que dá pra prestar atenção no jogo! James Potter ria ao seu lado. - que belo time você tem, heim, Knightheart.. Logo depois um balaço atingiu a goleira da grifinória, e ela caiu da vassoura. O mais impressionante, é que era um balaço arremeçado pelo batedor da própria grifinória, era para acertar o artilheiro da sonserina. - Há! pelo menos o meu time não comete falta nele próprio! gargalhava o garoto. James apenas o lançou um olhar furioso, e nesse exato momento, o pomo parou bem na frente dos dois rapazes, e saiu a toda velocidade, James e Sawyer o seguiram, estavam muito rápidos, lado a lado. O pomo parecia brincar com eles, voava em zigue-zague, ora muito alto, ora muito baixo, e os dois sempre atrás, Sawyer nem sabia mais o que estava acontecendo no jogo, até ouvir a narradora dizer: - Gifinória na frente por 120 à 70. estavam perdendo? incompetentes... De repente o pomo deu um mergulho muito veloz, e os garotos o seguiram com igual velocidade, qualquer pessoa com uma leve disposição a enjôo já teria vomitado a muito tempo, mas Sawyer estava acostumado a voar, crescera na romênia em uma família de domadores de dragões, montava dragões desde criança, uma vassourinha era moleza. Eles aceleraram, agora James estava um pouco á frente, quando de repente o pomo deu um uma curva inesperada, James perdeu o controle da vassoura tentando segui-lo, bateu na parede da arquibancada e caiu no chão, Sawyer, por estar um pouco atrás assim que o pomo terminou a curva e tentou subir de novo, foi quase que direto para a mão direita do garoto, que só precisou se esticar um pouco. e subiu com a vassoura, voando em círculos pelo campo seguido pelo time da sonserina, comemorando. Era a primeira partida do ano, e a vitória foi da Sonserina.
Depois do jogo, todo o time e toda a casa Sonserina foi para o Salão Principal, comemorar.
No começo da partida, Alice sentiu-se tão perdida que por pouco não deixou o estádio. Mas, como não poderia dormir ou estudar com toda aquela gritaria, deu de ombros e resolveu dar uma chance ao jogo. Nada entendia, mas, num dado momento, o pomo de ouro voou a centímetros de seu nariz. Após um leve susto, ela passou a acompanhar a pequena bola alada, não compreendia o resto da partida, então, tratou de concentrar-se nos apanhadores, sem saber para qual deles torcer. Um batedor da grifinória atingiu a própria goleira, o que fez Alice arredar-se um pouco para o lado da torcida da sonserina, incrédula. Ainda via o pomo, tal como os apanhadores, que o perseguiam com tal ferocidade que chegavam a assustar. A moça nunca teve grande entendimento com a vassoura, usava-a apenas em momentos de estrita necessidade, e vê-los tão acrobatas no ar começava a lhe deixar nervosa.
Após muito exibicionismo de James Potter, decidira que estava torcendo mesmo para Sonserina, de modo que, ao fim da partida, já estava usando um cachecol e todos os adereços que o rapaz ao seu lado lhe passara durante a partida, sendo confundida com a vibrante massa verde e prata. Anunciado o placar, Slytherin estava perdendo, o que só a deixou ainda mais inquieta. Passou a gritar e socar o ar junto com todos os outros alunos da sonserina, o menino louro, Knightheart, precisava pegar aquele pomo... E pegou! Alice, junto com o resto da torcida sonserina, levantou-se e urrou alto quando o loirinho bonitinho envolveu o pomo com a mão. Abraçou o garoto do lado, mesmo sem conhecê-lo, quando o time da sonserina, liderado por seu capitão, sobrevoou o campo, comemorando a vitória. Durante os anos de aluna da Beauxbatons, nunca se comovera tanto com uma partida de quadribol.
Ainda pulando e gritando, foi carregada pela massa de estudantes febris, chegando sem ao menos notar, ao salão principal. A decoração era completamente verde e prata, fazendo com que a garota se sentisse na sala comunal da casa. Não vira mais o menino que se sentara ao seu lado, mas também não saberia reconhecer se o visse, em momento nenhum se virou para ele. Um outro aluno muito empolgado colocou-a em suas costas e saiu correndo com ela pelo salão, o que a fez rir alto, pareciam todos loucos, mas estavam apenas felizes, tal qual ela se encontrava. Desceu das costas do rapaz, o salão estava tomado de sonserinos e ela, como mestiça que era, começava a sentir-se deslocada ali dentro. Deixaria o salão. Deixaria, assim que achasse uma saída.
Sawyer... Bom, ele sumiu e eu não sei no nome dele. Mas ele descreveu a partida de quadribol.
Calligaris sem Contardo
Interessantes porque a intimidavam e instigavam muito mais que quaisquer outros, da Grifinória, Lufa-lufa, ou da própria Corvinal. Não admitiria porque não pretendia envolver-se com eles. Eram conhecidos, até na Beauxbatons – escola que, ela acabava de concluir, não dava base nenhuma para o estudo e preparo de poções e que, portanto, agora, dava à menina mais um motivo para odiá-la - por serem preconceituosos em relação a híbridos como ela. Não via fundamento nenhum nessa perseguição. Mas essa é e sempre foi a grande alavanca do preconceito, a falta de fundamento!As penas de dedo-duro caíram todas no chão durante esses minutos de distração tão típicos da menina. Ajoelhou-se, e só sentiu-se mais humilhada em relação à classe. Com todas as penas recolhidas, atirou-as no caldeirão sem nenhum jeito e com muita raiva. Estava decidida, ia dedicar a sua vida à caça de dedo-duros, foi então que... Como por mágica, que era o que realmente ocorria ali, a poção foi ganhando uma textura suave... Como a da água, e ficou incolor, como a amostra sobre a mesa do professor. Reprimindo um grito de excitação, retirou da mochila o fino recipiente de vidro, que encheu de poção até a borda. Agradeceu em pensamento ao pai trouxa, por ter lhe deixado ficar com o temperamento instável da mãe.
A sala inteira olhava para Alice com curiosidade e admiração. Ela era a única que havia conseguido fazer a poção. Severus, que anotava observações em cima de observações no seu livro de poções muito usado, se assustou quando a menina gritou, e gritou junto, com sua voz meio rouca e grave, muitos alunos olharam para ele também, mas não com o mesmo olhar de admiração. Quando isso aconteceu, ele ficou muito tímido e como estava sentado, colocou o rosto muito próximo do livro de poções para que não vissem que seu rosto estava vermelho.
Quando terminou a aula de poções, e todos já haviam conseguido fazer a poção, Severus foi até a menina que ainda guardava suas coisas e com muita vergonha disse: - Oi, você deve ser Alice. Percebi que você fez muito rápido a sua poção... Como conseguiu em tão pouco tempo? - Perguntou o garoto, curioso.
Após o preparo da porção, tudo pareceu ficar mais leve e mais fácil para ela, até mesmo estar na presença dos sonserinos. Caminhou tão empolgada até o professor que quase derrama a poção pelo caminho, pondo tudo [ou parte de tudo] a perder, mas conseguiu conter-se, a parar de tremer aquela mão, até chegar à mesa de Slughorn, onde depositou o frasco rapidamente, sem sequer virar para encarar o professor.
Voltou lentamente, tentando passar o tempo, sentou-se em silêncio e esperou a aula terminar. Ficou estática por quaisquer 5 minutos e desistiu: Retirou de sua mochila um pequeno livro, ‘O Anticristo – Friederich Nietzsche’ e, cruzando as pernas, pôs-se a ler. Era uma amante da filosofia trouxa, admitia, e pretendia seguir carreira nessa área... Talvez caindo na psicologia como o pai. Mal podia esperar pelas aulas de estudo dos trouxas! E, falando em esperar, a menina mergulhou tão profundamente no livro, que deixara o tempo passar até demais. Franzia o cenho, quase que chocada com o que lia.
Fechava o livro, fitava a mesa com tal intensidade que poderia perfurá-la, após algum tempo com os olhos emitindo o brilho azul que sempre reluziam quando ela estava concentrada, voltava a abrir o livro. Nietzsche era, por vezes, enfático demais, ou ela que simplesmente não tinha parado para pensar do ponto de vista dele. Podia ser tudo uma questão de ponto te vista, mas então Nietzsche devia se contorcer bastante para conseguir tais angulações! [ps.: Alice nunca leu o Anticristo! o/]
A aula terminara e, como era o último horário do dia, todos já se retiravam da sala, mas Alice permaneceu em seu lugar, sem perceber um movimento sequer, ao seu redor. Foi quando lhe abordaram. Deu quase que um salto na cadeira, fechando o livro automaticamente. Apoiou as mãos na mesa. Assustava-se sempre que alguém se aproximava. Com os olhos apagados do brilho de outrora, estudou o aluno a sua frente. Era um sonserino, moreno, bonito, querendo ela admitir ou não.
Só então percebeu que fora a primeira a entregar a poção, e que ainda gritara quando terminara... Só mesmo ela para não notar que deviam ter olhado para ela... Maneou a cabeça para os lados, irritada consigo mesma: – Distração... Soltara, sem perceber... Então olhou para o rapaz, com o olhar já mais iluminado: – É, distração! Eu pus todos os primeiros ingredientes, exceto pelas penas. Distraí-me, foi isso, pensando noutras coisas... Demorei a pôr as penas, e assim que as coloquei, a poção ficou pronta! Respondia sem ar de resposta, mas de indagação. Esperava que o menino lhe explicasse o que acontecera, porque ela não sabia dizer. Mordeu os lábios, não diria a ele que pensava em sonserinos quando a poção deu certo. Apenas desviou o olhar, com aquela timidez tão singular da menina.
Severus olhou para a garota como se o que ela acabasse de lhe dizer fosse algo terrível e sem sentido algum.Ele era totalmente apaixonado por Poções, era a sua matéria favorita.Como alguém poderia simplesmente ter sorte e conseguido fazer uma poção complicada e trabalhosa em tão pouco tempo e ainda por distração?!Era algo quase absurdo. Mas Severo não disse nada. Assentiu com a cabeça e anotou as observações, em seu livro, do que acabara de ouvir. - Muito inteligente de sua parte, Calligaris, você tem algum parente alquimista?Vai ver que esta no seu sangue. – Piscou para ela, pegou aquela mão macia e beijou.Antes de sair da sala ele deu mais uma olhada na menina e saiu.
Alice ainda evitava olhar para o rapaz, talvez por isso não percebeu a repulsa no olhar do rapaz, ou simplesmente, não percebeu porque nunca percebia nada. Mas observou-o anotar no livro sabe-se-lá-o-quê e começou a sentir-se um pouco boba. Foram lhe perguntar como ela fizera a porção e ela não lhe cedera nada de útil. Mas fez uma nota mental de sempre esperar um pouco antes de pôr as penas. Não pôde captar qualquer entonação ou intenção na voz do rapaz, e ficou sem entender o que ele quisera dizer. Calou. Preferia não mencionar nada sobre seu sangue ou seus parentes. Mas se não lhe falhava a memória, tia Gertrudes estudara química, muitos anos antes de enlouquecer. Será que tinha qualquer relação com ela? Hum, esperava que não. Fora desperta de seus devaneios com um leve beijo na mão, ao qual não soube como reagir. Olhou-o, interrogativa, e o viu piscar. Nada esclarecedor. Assistiu a o menino deixar a sala, e coçou a cabeça quando ele fechou a porta.
Ainda permaneceu na sala por quaisquer minutos, não queria encontrá-lo na saída da masmorra. Foi então que aquele zelador, Filch, expulsou-a de lá, o que não a surpreendeu. Desceu as escadarias muito lentamente, era horário de almoço, então, e ela não tinha fome, que dirá pressa. Pretendia vagar pelos corredores até a próxima aula, ou esconder-se na biblioteca. Retirou da pesada mochila o livreto de Nietzsche, pretendia ler enquanto andava, mas seria habilidade demais para uma menina tão otária. Sem mesmo notar-se, atirou a mochila no chão e sentou-se, num corredor qualquer, encostou-se na parede e foi absorvida pela leitura, completamente alheia a seu paradeiro ou ao tempo que passava ali. Esta sim era a grande potência de Alice, mesmo que não tivesse qualquer carga genética envolvida, devanear e esquecer-se do mundo, deixando que este também se esquecesse dela.
O livro não era muito grande, mas a linguagem e o conteúdo eram um pouco pesados, e ela precisava de muito tempo para compreendê-lo em todo. Fechou o livro e os olhos, refletindo sobre o que acabara de ler. Como aquele cara era complicado... Sua cabeça começava a doer, nisso que dava ler livros pessimistas. Mas o brilho, o brilho azul emanado por seus olhos quando esta se punha a pensar, iluminou o corredor quando ela abriu os olhos, voltando-se para o livro.
Logo que saiu da masmorra, Severus esbarrou em Lucius que o convidava para ir jantar, mas ele não estava muito afim. Ele contou para Lucius sobre a poção, mas Lucius nunca se interessara muito nessas coisas: - Fala sério, cara, já acabou a aula e eu to com fome e nem um pouco interessado em falar de estudo... Blérg! - Não era nenhuma surpresa, Lucius nunca foi interessado em estudar, se não fosse pelos seus pais, ele nem estava na escola. Passava uma garota loira com a roupa da Sonserina, no corredor, era Narcisa. Severus olhou para Lucius, que, agora ajeitou a gravata: - Severus, como estou ? - Ta ótimo, cara. - E deu um tapa de leve nas costas de Lucius, ele sabia o quanto ele gostava daquela garota. Severus deu a volta, não queria ver aquela cena e mesmo assim, não estava com fome. Ele até pensou em descer as escadas e ir para o salão comunal, só para conversar com os amigos mesmo, mas não estava muito afim. Voltou a subir e ficou batendo perna pelos corredores e olhando em volta. Não andara muito e vira a mesma menina da aula de Poções. Era Alice. A menina estava lendo um livro não muito grande que Severus não reconhecera. Ele ficou olhando-a por um momento, virou-se para um lado e voltou a olhá-la: - Tudo bem, Calligaris?
Sentada próxima à parede, Alice inclinava-se cada vez mais sobre o livro, encolhendo-se e fechando-se em sua concentração. A mente trabalhava febrilmente, e era quase possível perceber que as páginas do livro estavam mais iluminadas pelos olhos de Alice que pelas velas no corredor. Absorta em sua leitura, assustou-se quando abordada. Ela era campeã em sobressaltos e até gritinhos, não somente por ser a aluna mais otária do colégio até o dado momento, mas porque não costumavam ir lhe falar. Eram muito raras, as vezes em que ouvira a voz de alguém, desde que mudara de colégio, referindo-se a ela, então, quase que escassas. Reconhecendo o rapaz da aula de poções, com quem não pretendia encontrar-se até a próxima aula de poções, fechou o livro rapidamente. O autor – que já não fora muito bem recebido com suas verdades pessimistas e enfáticas - era trouxa, nada convidativo para um sonserino, nada mesmo – ponderou - O que foi que ele disse? Ah, “tudo bem, Calligaris?”, certo...
Meneou a cabeça positivamente. E murmurou um “sim” indeciso. – Mas sem fome... Não vai comer, garoto-da-aula-de-poções? – Não sabia o seu nome. Ou sabia, mas não tinha memória o suficiente para lembrar. Se duvidasse, não lembrava nem da última palavra lida n’O Anticristo antes de o rapaz chegar. Seu nome, o colégio inteiro sabia só porque era novata, mas muito em breve seria esquecido. Seus lábios tracejaram um delicado sorriso, ela não pretendia parecer tão desconcertada quanto realmente se sentia. Seus olhos emanavam, ainda, aquela luz azulada estranha. Exatamente o que ela torcia para que não estivesse acontecendo. Por precaução, evitou olhar para o rapaz, abaixando o olhar até o chão. Não sabia em que corredor estava, mas só então percebeu que se sentara e que estava lendo ali mesmo. Levantou-se guardando o livro dentro da mochila, e começou a enrolar uma mecha de cabelo nos dedos.
Livre sinal, para os poucos que a conheciam, de que ela estava, no mínimo, nervosa. Nervosa era o mínimo a se dizer, ela realmente tinha medo de pessoas, de sonserinos mais ainda. Aguardava ansiosamente pelo término dos anos acadêmicos para, enfim, poder manter-se reclusa e sozinha. Na segurança de sua casa, ou de um quarto de hospício, que fosse. Mas evitaria ficar com a imagem de lunática em Hogwarts também. Percebeu então, que pegara justamente uma das mechas que Hillary encantara, e que estava cor-de-rosa desde então. Tentando ser discreta, deixou a mecha de lado e pegou outra, uma loira. Odiava aquelas mechas espalhadas por todo o cabelo, mataria Hillary, um dia, por ter lhe feito aquilo, mas receava ter ficado por tempo suficiente com ela na mão, e que o rapaz já a teria visto. Um riso fraco acompanhou suas conclusões. – Como te chamas? – Perguntou, quase naturalmente.
Era um Severus Snape, também não sei o nome dele.
Greengrass&Nott
Daphne andava de um lado para outro na escura sala para onde a levaram... Ainda não havia descoberto um modo de contar a Violet notícia tão delicada e continuava destruída. Sentia-se definhar de dentro pra fora, apodrecer lentamente e a retina secar. Todas essas sensações ruins de que ela seria corroída da ferida em seu coração até a carne mais exposta lhe fizeram esquecer de que nunca tinha conhecido a própria enteada.. Não sabia nem se Violet já soubera do casamento. Parou de andar e ocupou-se em retirar todas as cadeiras ao redor da mesa de madeira fina que se encontrava no meio da sala. Deixando apenas duas, nos cantos mais extremos do retângulo – onde julgou mais seguro para ambas as mulheres. Mulheres... Da última vez que vira Violet, esta era um pequeno bebê ensangüentado em suas mãos. Daphne não olhou-a mais que uma vez, entregou-a a uma enfermeira e deixou a sala evitando olhar para a mãe também.
Agora, lá estava Daph. Tendo que contar a Violet que seu pai morreu. Imaginava um encontro mais ameno para as duas, ou não imaginava encontro nenhum... Após tantos anos de medicina, ainda não aprendera a lidar com a morte. Morte... Morto... Theodore Nott. As senações de putrefação voltam e refletem-se no seu olhar. Ela senta-se na cadeira disposta a chorar quando a porta se abre. É agora ou nunca, Violet chegou.
Tentando recompor-se à tempo, forjando um semblante neutro de última hora. Não queria parecer frágil aos olhos da pessoa a quem dedicaria sua vida daquele dia em diante. Indicou a cadeira na outra extremidade muito séria, tentando fazer a Doutora prevalecer sobre a viúva.
Havia sinais por toda a sala. Duas cadeiras localizadas no centro, postadas uma de frente a outra, era a indicação que ambas deveriam sentar-se ali, cara a cara, para enfrentar uma realidade que ambas esforçavam-se para ignorar. Violet enrijeceu os músculos com a visão, sua mente - apuradíssima para detectar sinais de todo o tipo, trabalhava febrilmente, e, provavelmente por isso, não proferiu nenhuma palavra de cumprimento ao erguer o rosto e encarar a 'madrasta' nos olhos, com uma firmeza inapropriada pra ocasião, olhares firmes transmitem desafios...
Começou a sentir frio, arrepiou-se com a nítida sensação de mau agouro, o prelúdio do pesadelo que ainda não fazia idéia de que iria enfrentar.
- Ficarei em pé. - Anunciou, como se a determinação de manter-se de pé pudesse afastar o mal pressentimento; como se a mudança de posicionamento pudesse alterar de alguma maneira a mensagem que Daphne viera trazer. Havia algo de errado com ela, com a súbita serenidade em seus olhos, algo que Violet tinha certeza de não ter encontrado ali quando os capturou pela primeira vez.
- Você é irritantemente óbvia. - Sibilou a acusação. De fato, Daphne Grengrass, irmã de sua madrinha, uma pessoa que fazia parte do grupo de amigos íntimos de seu pai... uma pessoa próxima era algo previsível demais para Violet, que acostumara-se em as complexidades dos fatos... as coisas simples eram as mais difícies de serem aceitas. Por reflexo, abraçou-se repentinamente, querendo espantar o frio psicológico pelo clima tenso, ou quem sabe, para passar a mulher o recado corporal para que mantesse distância, pois não lhe agradava nem um pouco a idéia de tê-la por perto... Maldita usurpadora.
- A que veio, afinal? - pressionou, estreitando os olhos azuis, tão semelhantes ao do pai. Dessa vez, foi traída pela voz, que escapou trêmula de sua boca, denunciando toda angústia que ía em seu íntimo.
Talvez não tão óbvia quanto gostaria de ser. Quando estendi o braço, quis dizer ‘Sente-se’. - Dessa vez, não se mexeu, apenas fitou a menina a fundo em seus olhos... Daph terminava rude quando se sentia ameaçada. Entristeceu-se por começar assim com a menina, só tendia a terminar pior, mas fora decisão da garota, ela só respeitara. Ela cruza os braços... Com a apreensão das velhas famílias desfalcadas a quem já dei notícia parecida tantas vezes... Eu sou sua única família agora.
Manteve o semblante neutro e esperou que a menina se sentasse enquanto fitava a mesa, a olhava com tal intensidade que poderia atravessar a tábua com o pensamento. Mas pensamento nenhum lhe passava pela cabeça agora. Apenas as semelhanças de Theodore e Violet, sobre as quais não poderia pensar ali. Precisava dar a notícia e partir, sentia suas forças esvaindo-se... Mal sabia a quem recorrer. Mais pensamentos invasores.. Porque sua vida com Theo fora tão conturbada? Porque não aproveitaram melhor o tempo que tiveram... Porque experimentara a perda do pai e ainda assim se propunha a errar do mesmo jeito com a filha? Astoria fora petrificada pelo tempo e a menina, com seu ódio, era a única família com qualquer sentimento a quem Daph poderia se agarrar.
Descruzou vagarosamente os braços, deixando que eles caíssem ao lado do corpo. Desviou os olhos na direção das cadeiras que Daphnne indicara, pedindo que ela se sentasse. Por merlim, pra quê tanta insistência com algo tão estúpido? Violet fixou o olhar na cadeira, os apertou com força, e no tempo de alguns segundos, a cadeira levitou e foi empurrada por uma força invisível até a outra extremidade da minuscula sala. Porém, a força que Violet empregara no feitiço foi tanta, que a cadeira acabou por bater na parede e cair, ocasionando um estrondo que a despertou, deixando-a novamente sóbria, obrigando-a a voltar os olhos pra mulher.
- Isso é estúpido. – Explodiu, levantando as mãos pro alto. Lentamente, as mãos desceram até o rosto, e violet começou a passar as mãos pelo rosto, pelo cabelo; estava irritada, e os gestos ansiosos eram a advertência pra si, e pra Daphnne.
- Você realmente acredita que se sentarmos uma de frente pra outra, fingindo um ar civilizado, alguma coisa irá mudar? Irá melhor? hein? Por Merlim, fale logo a que veio, e vá embora. – Continuou. Já não mais gritava, mas também não mais escondia o tremor em sua voz; o medo estava estampado em seus olhos. Ignorando as regras que ela própria impusera, Violet avançou até Daphne até ficar próxima de seu corpo. A enfrentou com os olhos, queria tentar ler neles a razão praquela situação ridicula que estava obrigando-a a suportar.
- Fale! Vá mudar alguma coisa se começarmos a encenar ? Eu sei que vc não está aqui de livre e espontânea vontade. O meu pai te mandou, não foi? DIGA! Alterou o tom, citou Theodore. Já não aguentava mais se controlar, já entrara fervilhando na sala. Não estava disposta a ser civilizada, a dá amostras da educação que seu pai lhe dera. Não tinha obrigação de ser agradável, e não o seria.
Daphne assistiu à corrida da cadeira com tal calmaria que parecia que iria rir. Theodore - Pensou. – Com que propósito eles agem assim? Com a mesma forjada calma e fingida boa vontade, Daphne levantou-se para encarar a menina com igual prepotência. Encarou a menina nos olhos por alguns instantes, repensando tudo... O porquê de ir ali. E então, no azul dos olhos.. Reconheceu mais uma vez a pessoa que ela mais amou e todas as promessas que fez a ele.
Olhá-la como se fosse minha filha, amá-la como se fosse parte de mim. Por esse momento, odiou-a. Mas não poderia odiar alguém que ela mesma trouxe ao mundo por mais de um minuto. Pensou em ir embora, pensou em atirar Violet contra o monte de cadeiras, e só aí reconheceu tal sensação: Quantas vezes já não quis atirar Theo contra um monte de cadeiras, um monte de rochas, contra um abismo sem fim? O mesmo tanto de vezes que o quis de volta pra si. Acalmando-se, sentiu novamente aquela dor que aquele nome lhe trazia e que lhe traria ainda muitas vezes.
- Já que falamos em estupidez... Você pode me responder mais tarde porque me tratar assim lhe fará sentir melhor. A mulher sorriu, um sorriso que se desfez em segundos... Atropelado pelo maldito semblante equilibrado, que era obrigada a adotar nessas situações... – Seu pai não me mandou, mas se não fosse por ele... Eu realmente não estaria aqui. Não pense, garota, que eu pretendo me fazer de civilizada ou de sua amiga. Mas as circunstâncias que me trazem aqui exigem, sim, certo profissionalismo e alguma paciência. Pela última vez, lhe peço que se sente antes de começarmos a falar.
Dito isso, puxou a cadeira onde estava sentada e ofereceu-a para a garota, sentando-se sobre a mesa em seguida. As pernas soltas balançavam com certa ansiedade e os braços a apoiavam com uma firmeza certamente hipócrita, mas que lhe ajudaria a não desabar em lágrimas na frente de ninguém. Já acomodada e sem voltar a fitar Violet, tornou a falar: – Preciso que me conte o que você sabe sobre minha relação com seu pai, e o que eu vou ter de contar. Então prometo te esclarecer tudo o que você deve estar esperando saber há algum tempo. Finalizou, tentando disfarçar o medo que tinha de saber da opinião de Violet sobre ela. Quase estremeceu, ela que nunca se importara com a opinião de ninguém.
Violet encarou os olhos cor de mel da mulher com extrema frieza. Lançou-lhe um olhar impassível, tomou o cuidado de não transparecer mais nenhuma emoção. Sentia-se cansada, verdadeiramente fatigada, e não queria perder preciosos momentos naquela discussão sem fim. – Já que faz tanta questão, eu me sento. – concordou de má vontade. Desejava apenas encurtar o tempo daquela conversa. Fazia questão de ignorá-la deliberadamente, tanto que, mal entendera o comentário breve que ela fizera sobre seu pai , enfim, a garota não estava disposta a dar-lhe atenção.
– Eu não sei absolutamente nada, e é exatamente isso que me incomoda. Soube do namoro de vocês, através do Scorpius, sim, teu sobrinho adora uma fofoca. – Contou, erguendo o rosto pro alto e rodando os olhos. Largou-se na cadeira que Daphne indicara - só depois de alguns segundos que consertou a postura, cruzou a pernas, e fitou, sem prestar atenção, o quadro acima da cabeça da mulher. Era o único adorno existente na rústica sala. – Fale, Greengrass. Fale logo de uma vez. O que você quer comigo, afinal? – Mordeu as paredes da bochecha; estava nervosa: tinha captado a energia estranha no ar a minutos atrás, mas fingia que fora apenas impressão, não iria mais transparecer nenhuma emoção, não valia a pena gastar energia com aquela mulher.
Nott. – Começou corrigindo-a, o que a fez sentir mal. Não tinha idéia de como dizer de forma delicada que era tudo o que restava à garota. Uma mulher completamente estranha e ‘irritantemente óbvia’. Apoiava o cotovelo sobre o joelho, o queixo sobre a mão, enquanto ouvia a menina, mas não conseguiu conter os braços e os envolveu fortemente contra si antes de se explicar. Fechou os olhos com força e desejou que Violet não a estrangulasse após o que ela iria dizer, soltou um pouco rápido demais, mas toda aquela demora a estava deixando mais angustiada. – Eu e seu pai nos casamos, Violet, há cerca de 5 meses, mas eu não perguntava de nós dois... Preciso saber o que sabe da saúde de seu pai. Eu sei que você deve ter ouvido falar de alguma coisa, logo ele... Não conseguiria esconder nada de ti. – Parou por ali, sentia que não conseguiria dizer mais nada. Como poderia sentir-se traindo uma pessoa que nem conhecia? Mas a questão é que foram tantas promessas e discussões acerca de Violet, que parecia quase que surreal estar contando-lhe uma coisa daquelas. E se ela não aceitasse com facilidade, a quem iria recorrer? E se Daphne não fosse capaz de amá-la, protege-la, guarda-la? Tudo lhe pesava naquele momento. E sentia que cada palavra de Violet iria cortar-lhe, ainda mais, a ferida já aberta por Theo em seu leito de morte.
Como?! – Num primeiro momento a menina estranhou a correção. Franziu a testa, pendendo a cabeça pro lado, num gesto de confusão. Porém, a explicação não tardou a vir, e o rosto de Violet se contorceu numa careta de perplexidade, mal teve tempo pra reagir, e Daphne já emendara a pergunta sobrê a saúde de se pai, o quanto ela estava 'por dentro' do estado dele.
– Oh, sim, ele não consegue esconder nada de mim. Ele se casou há cinco meses, e bem, isso não é uma notícia importante o suficiente para eu saber! – Apesar da preocupação, não conseguiu reprimir a observação irônica. As mãos que mantinha cruzadas encima do colo tremiam, e Violet não fazia idéia de como se portar, de como disfarçar toda revolta que lhe ía no íntimo. Foi então que sua mente clareou, talvez fosse o instinto, mas algo a despertou para a seriedade do momento... – Meu pai está doente? E você como médica veio me contar? Oh, que gentileza. – Agora era a vez de os lábios secos da menina tremerem, já não conseguia mais definir a razão de sua raiva, por quem exatamente era. Fez um movimento brusco ao mudar de posição na cadeira, e seus cabelos desprenderam-se do nó que fizera no topo da cabeça, e caíram displicentes até o meio de suas costas. Seus olhos azuis voltavam-se totalmente em direção aos olhos cor de mel da mulher. Estava interessada agora, iria cobrar todas as informações a que tinha direito de saber!
Daphne fechou os olhos por um segundo, então Theodore nem Scorpius haviam dito nada mesmo à menina. Por mais um instante, odiou-os. Apertava a madeira contra os dedos como se fosse arrancá-la da mesa, mas usou de discrição e não acha que a menina perceberia. De sua garganta, a voz parecia ter sumido, mas não importava.. Teria de sair agora: Violet, seu pai esteve muito doente nos últimos anos... Ele me procurou há 8 anos para iniciar um tratamento e, é por isso que parecemos tão próximos. Mas ele já sabia que não... – Fez uma pausa lenta. Nunca mais tinha parado para pensar nisso. Ele já sabia, ela já devia esperar... Ela já devia tê-lo esquecido no dia em que Violet nasceu. – Entenda que tudo o que ele queria.. Era te proteger. Ele sempre soube que esse tratamento não o curaria, mas ele quis viver pelo menos até que você estivesse grande o suficiente. Ele... Ele me fez prometer que eu cuidaria de você caso o tratamento não adiantasse mais. – As pernas já balançavam violentamente sob a mesa, revolver tudo aquilo era como assisti-lo morrer novamente, sua voz parecia rasgar-lhe a garganta, mas não tremia, o que já era o suficiente. Fez mais uma pausa antes de chegar ao ponto onde já devia ter chegado há muito tempo. Casamos-nos apenas por que... Não havia mais resposta do organismo dele e uma hora ou outra... Acabaríamos apenas eu e você. - Após tanto tempo fitando o chão ou o nada, ergueu o olhar até o da menina, procurando encontrar-se, quem sabe. Temia demais a reação da garota, mas... Agora, de nada adiantaria. Falar ou não, calar não o traria de volta à vida. Sem desgrudar os olhos da menina, declarou quase que atropelando-se: - Violet, seu pai acaba de falecer, no St. Mungus, durante uma consulta emergencial que ele mesmo marcou... O atestado de óbito já foi direcionado ao Ministério e... A partir de ontem, eu sou a sua tutora legal.. Como sua madrasta. – Ao término da sentença, mordeu os lábios com tal força que quase os feriu. Desviou o olhar da menina, num misto de vergonha e culpa. Ela era a médica! Ele morreu em seus braços e ela não poderia fazer nada para impedir! Sentia-se tão incompetente e insegura que a pior reação de Violet só a faria sentir-se redimida. Agora tinha chegado a um fim. Tudo o que viera dizer, já disse, com relutância. E nada poderia fazer para conseguir perdão ou confiança da enteada. Só então surgiu, quase que inundado pela dor da perda, o amor incondicional que sentia por Violet, nunca havia percebido... O quanto ela importante para Daphne. Estava decidida, iria agüentar toda a raiva da menina, mas faria de tudo por ela.
(Theodore Nott faleceu. Decorrência de problemas pré-existentes no pulmão, porém, mal teve ínicio o tratamento que o empresário fazia 'escondido' nas salas do Hospital St. Mungus, as complicações vieram, sem explicações coerentes e razoavéis, sem nenhum 'por que’.)
(Violet Nott é 'interpretada' por Juliana Moreira, minha autora preferida!)
Beatrice Collerman
O endereço, ela recitou ao taxista num tom entediado. Ligou seu celular, e percebeu que não tinha ninguém para ligar em Beverly Hills. Apesar de subir na carreira e manter contatos profissionais, não tinha realmente nenhum conhecido a quem avisar que estava de volta à cidade. Suspirando, jogou a cabeça contra o banco traseiro do táxi. Logo estaria de volta a seu apartamento, o que não lhe confortava.
O táxi já virara na esquina de sua rua, ela ajeitou o suéter negro e calçou novamente os delicados saltinhos e preparou-se para descer do carro. [i]Cá estamos nós, Beatrice, de volta a Beverly Hills.[/i] – Pensou, desanimada, enquanto o carro parava. Sacou a chave do apartamento e a apertou forte na mão.
Beatrice Collerman [anonimos] - [19 anos] - [solteira] - [Alexis Bledel]
A prima perdida de Yasmin Collerman. Nao sabe da existencia da prima, mas quando descobrir, vai descobrir junto um extremo carinho pela gordinha diretora e uma amizade verdadeira nascerá. É gentil, meiga e estilista de sucesso. Trabalha na Dream World como figurinista e maquiadora, tendo ganhado muitos premios famosos por seu figurino audaciso e diferente.
quarta-feira, 9 de abril de 2008
Gnomos
E eles têm um líder. Praticam um ritual esportivo que inclui caçar fadas e ver quem as cospe mais longe (o que causa uma guerra interna entre esse povo). Não sabem exatamente o porquê do uso das fadas, mas acham que é pelo gosto adocicado terrível que elas têm. Vários gnomos já morreram durante essa prática... O vencedor é o líder.
O líder atual é um ser gosmento, com a pele tão negra quanto um céu sem estrelas, com verrugas em toda face, se é que pode ser chamada de face, pois a rasgo cheio de dentes afiados pode ser facilmente confundido com seu ânus. – O tom grave na voz de Selene fazia a pele felpuda e bronzeada das pequenas fadas, ouriçar.
- É mentira. – Antecipou Soleil, a irmã de Selene – ao que as outras fadas se sobressaltaram. – Ela só quer assustar vocês.
- Deu certo comigo. – A minúscula Sil replicou no que mais pareceu um pio.
- Porque você é pequena e ingênua. – O sorriso de Soleil iluminou o ambiente.
Instalaram-se num troco de árvore morta que pretendiam restaurar. Esse era o trabalho delas: Proteger e renovar a vida destruída pelos humanos e nunca serem pegas por eles. Era com esse propósito que tinham a propriedade de transformar-se num pequeno inseto, idêntico a um vaga-lume a olho nu.
Durante a noite, elas eram as únicas luzes na floresta, motivo por que outros viajantes sempre procuravam árvores habitadas por elas. As ninfas eram, também, os últimos seres que um malfeitor da natureza queria encontrar: Com seu tamanho e sua energia, eram capazes de importunar um visitante indesejado por até 72 horas ininterruptas com pequenas mordidas e afins.
Ao abraçar Sil, o brilho alaranjado de suas asas misturou-se com a cor-de-rosa da irmã menor, que intensificou.
- Ela acredita porque é a verdade, Sol, eu os vi! E vieram em minha direção, voei que minhas asas não agüentaram, e minhas costas ainda doem. Vocês precisam acreditar em mim! – Voou por alguns segundos e caiu, o bumbum descoberto de saia batendo na palha e a expressão aborrecida. Selene era a mais bonita das fadas menores, talvez por seus olhos azul-ofuscantes, ou pelos cabelos sempre bem dispostos. Estes eram compridos e negros, mas sempre dispostos num penteado caprichado. Aquele dia, por exemplo, exibia finas tranças saindo de um rabo de cavalo, gotículas de orvalho cristalizadas adornavam-nas em toda a extensão, que percorria o ombro e roçava a cintura da moça.
Eram muito diferentes, as duas: Selene dos cabelos negros e noturnos e olhos frios como a tez, e Soleil da pele dourada, com olhos tão amendoados que mais pareciam mel em seu rosto e os cabelos rebeldes e arrepiados, curtos e com tendência a pegar fogo literalmente quando ela se enfezava. Sil viera como uma maneira de equilibrar as irmãs, como uma miscelânea de fogo e gelo, mergulhada em ternura e delicadeza infindas. Ainda assim, as constantes discussões entre as gêmeas não cessavam: Logo se puseram a debater perante todas as outras fadas, que assistiam agitadas. Fazia mesmo uma noite muito calma, e a discussão pretendia entretê-las até o amanhecer.
* * *
- Estão ali... – Seu sorriso foi acompanhado pelo grunhido de outros companheiros. Comentários excitados os sucederam como sempre ocorria nesse período do ano. Os gnomos eram derradeiras lendas para as ninfas, mas estas não passavam de um objeto desportivo para os pequenos monstros, mais cobiçado durante a corrida das fadas – ritual descrito fielmente por Selene, a primeira fada sobrevivente. Fugira muito agilmente, era verdade, mas os gnomos eram ainda mais experientes, e usaram-na para chegar à árvore onde se escondiam. O plano nunca fora utilizado antes e todos ainda congratulavam seu líder por tal idéia. Olaf, o líder daquele ano, teria vantagem em relação aos outros, como era costume gnomo, e pretendia pegar Selena para si antes mesmo de a corrida começar.
(Por Amanda Quaresma)
1º Capítulo
Cassandra, La sorcière estava em dia de caça. Caminhou até uma casa pequena no fim da rua. A casa era de tijolos fortes, tinha um quintal cheio de flores murchas, na verdade aquilo mal podia ser chamado de jardim. Cassandra parou diante da casa. Olhando fixo para uma janela aberta no segundo andar. As cortinas brancas dançavam com o vento.
Ela sorriu encantada. Pois os caninos brancos a mostra.
Ela abriu a portinhola de ferro enferrujado da frente da casa e adentro o "jardim". Esmagando ansiosa, todas as folhas mortas. Parou na frente da porta de entrada da casa e olhou para a parede ao lado. Lá em cima, a poucos metros de distância ela viu as cortinas. Em uma velocidade impressionante ela se agachou e saltou até a janela em movimentos graciosos. Pousou no parapeito da janela olhando atenta para todo o quarto. Nele não havia mais nada além de uma cama de solteiro, um grande armário, uma penteadeira e uma frágil menina dormindo a sono solto. Ao repousar seus olhos nela Cassandra deu outro sorriso vitorioso. Flutuou até a cama da menina, se ajoelhou ao lado e a observou.
Tinha cabelos loiros e ondulados. Olhos verdes. Lábios vermelhos e carnudos entreabertos. Seu corpo, coberto dos pés até o pescoço, subia e descia numa respiração calma.
Cassandra passou a mão no infantil rosto da menina. Não devia ter mais do que meros quatorze anos.
-Sangue jovem é sempre o mais apetitoso. -sussurrou ela com a voz cristalina e envolvente. Depois, contornou as bochechas da menina e tateou o pescoço da criança por debaixo dos lençóis. Finalmente o achou. Branco e macio. Quente e pulsante. Empurrou o coberto para baixo de seu pescoço e o cheirou. Criança cheia de vida e principalmente de sangue.
-Que terrível, que terrível. -falou balançando a cabeça.- Vou ter de tirar seu sangue pelo pulso menina. Desperdício. -debochou hipnotizada pela visão do pescocinho branco da garota. –Ou então tu preferes ser mordida no pescoço e morrer? Não, não, não! Mas que idéia a minha! O que tu achas de ser minha filha?
-Ela não tem idade nem de saber o que quer comer -sussurra uma voz suave e cínica da janela.
Recostada no parapeito da janela, cabelos morenos e mangas vermelhas voando com as cortinas, estava Morgana, La Mystère.
-Cassandra, Cassandra, andas tão previsível. Uma jovem menina descansando... Aonde vais parar? Roubando bebês do berço? – desdenha irônica. -Eu sei que não queres complicações com O Conselho. Vai além de simples crueldade condenar alguém que ainda nem viveu, de que irá te servir? Procure alguém ágil, madura, perversa. – Sorri contemplando a própria criação. -Deixe que ela cresça, viva, se descubra... – pega a pequena mão branca e cálida da menina. -Ou acabe logo com isso. – larga a mão da criança e se volta para a janela onde se encosta e respira o doce ar noturno, uma última olhada para o quarto e um ágil salto na escuridão.
Cassandra olha a amiga partir.
-Maldita, cínica, ordinária! Quanta ousadia!- pega o pulso da pobre menina que nada percebe ao seu redor e dá uma dentada forte. A garotinha, nada faz além de dar um gemido simplório. Ao terminar o lanchinho e lamber a ferida ela volta a praguejar.
-Se ela pensa que pode se intrometer dessa maneira em MINHA caçada só porque somos amigas pode ter certeza de que ela está enganada! - pulou da janela e continuou a falar. -Ora essa! Previsível! Até parece!
Cassandra foi se encaminhando para fora dos belos jardins da casa e andou a passos rápidos até seu automóvel, estacionado logo na esquina da rua. Pegou as chaves de dentro do decote e abriu o carro.
-Porcaria tecnológica poluidora de ar! Malditos mortais! Criando coisas somente para seu bem estar e esquecendo dos outros! Malditos mortais tão necessários! -quase berrou de frustração.
-Ah, não são tão ruins assim...- Morgana estava deitada sobre o capô do carro a observando - E então? Cadê sua miniatura? - pergunta cínica. -Achei mesmo que fosse pegá-la pra não resistir a um mês nessa "vida"...Por prazer em desrespeitar o conselho, entende? Como sempre previsível Cassandra.
-E ainda estou com fome...-reclama para si, ignorando Morgana.
-É natural, era um bebê! Esperava que ela tivesse a vitalidade de um jovem rapaz de 18 anos em média, ruivo, atraente e sozinho, querendo companhia? Delícia de jantar...- passa a língua pelos lábios mais vermelhos após a refeição.
-Pelo Amor do Tal Deus! Engula essa sua safadeza! E faça o favor de sair do maldito capô! -gritou, finalmente notando Morgana deitada toda serelepe.
-Calminha senhora Inocente, estou descendo. –Morgana disse deslizando lentamente pelo capô - Insaciável o tal rapaz... - os olhos brilham quando pensa nele - Não pude matá-lo, e ainda me pediu pra voltar amanhã. - comenta, rindo da inocência do garoto. - Eu sempre digo que venha caçar comigo, mas você prefere invadir creches! - desdenha enquanto encosta-se ao muro baixo.
Cassandra revira os olhos. Enjoado dos velhos sermões que uma velha vampira sempre teimava em lhe dar.
-Não entendes que quero ser chata e mandona como você? Quero uma filha. Quero ensiná-la! A culpa não é minha se você o fez contra a vontade. -disse controlando ao máximo as palavras que usava.
-Minha doce Cassandra...- Se aproxima dela e desliza a mão sobre seu rosto - Você tem tanto a aprender quanto a ensinar, esse instinto de ser criadora é um sinal de maturidade trazido pela solidão...- aperta-lhe a bochecha com força -Pelo menos sabes que foste um erro! - vira-se - Devia ter te deixado morrer queimada no colo de sua mãe! "A mãe e a filha juntas até a morte" A ser retratado por Goya*.Patéticas! Mas hoje diria que é visível o por que de ela ter me implorado para amparar seu pequeno frasco de veneno. Eu sei como ninguém como é passar a morte eterna ao seu lado e não desejaria a ninguém.
Solta um muxoxo, cansada. Pensou em revidar, mas desistiu. Vencida pelas palavras duras de Morgana.
-Que seja então. Voltarei para o Hotel...Quero dizer, para o cabaré –fala “cabaré” como se estivesse arrancando um molusco do peito -Boa sorte na sua volta. Tente pelo menos chegar inteira, por mais incrível que pareça ainda preciso de você. - resmunga.
-Voltarei inteira, não precisa se preocupar. - se delicia ao dizer a última palavra. - Sei o quanto precisa de mim. - pisca para ela e some pelo final da rua.
~*~
A noite caía fria e úmida pelos becos da cidade, e em um dos mais desertos ninguém ouvia uma mulher falar.
- Não é culpa minha! O que queres que eu faça? Não posso fazer nada! Avise sua honorável rainha de que ela não é mais minha responsabilidade há dois séculos! Se vocês não podem se resolver entre si à culpa não é minha, Cassandra já é maior de idade e não sou eu quem paga se ela adaptar alguém sem o consentimento de vosso glorioso conselho – fala, sarcástica e impaciente. - E pare de me seguir! – Se vira para encarar de perto olhos imperiosos azuis, gélidos e irritados de um ser que a seguia desde a casa da menina, era alto, pálido, cabelos negros até um pouco após os ombros largos e mãos frias no braço de Morgana, que respira rapidamente, até fazer uma pausa e falar, mais calma retirando a mão do rapaz de seu braço. - Cassandra já é adulta, responde por seus atos. Caso tu não tenhas percebido, eu não a influencio. – Morgana finaliza e esvaece no breu da madrugada parisiense, deixando Uyen rindo sozinho enquanto caminha para a direção oposta. Os longos cabelos negros voando ao ritmo da capa.
~*~
Cassandra olha Morgana partir e balança a cabeça desanimada. Mais de dois séculos de convivência e as duas ainda não se davam tão bem. Ela entra num Ford antigo e liga-o. Pragueja por estar fazendo aquilo, mas pisa no volante e segue em frente.
Já eram duas da manhã e pequenos flocos de neve começaram a cair do céu. Cassandra estacionou o carro perto de uma praça. Saiu dele e sentou num banco de madeira rústico ao lado de um poste. Olhou para o céu. Nenhuma estrela. Fechou os olhos e sentiu os flocos caírem em seu rosto. Ela adorava Paris, já havia morado e várias outras cidades com Morgana, mas Paris era única. Nunca perdera seu encanto. Nascera em Paris e pretendia passar o resto de sua tediosa vida lá.
Sentiu uma mão tocar em seu ombro. Virou instintivamente.
-Acalme-se, milady. –disse o homem.
Cassandra nada disse, apenas deixou o homem sentar ao seu lado. Era bonito. Ajeitou os cabelos castanhos escuros que caiam sobre sua testa.
-Posso sentar com a senhorita?-ele perguntou com um sorriso agradável, mostrando os dentes brancos.
-Fique a vontade, mas há outros bancos no qual o senhor pode sentar-se mais à vontade. –falou Cassandra sem retribuir o sorriso.
-Desculpe se a atrapalho, porém é sempre bom sentar ao lado de uma bela dama.
Cassandra olhou fixamente para ele. Os olhos pretos do homem eram incrivelmente penetrantes. Ela retribuiu o olhar, finalmente lançando-lhe um sorriso doce.
-Já que me encheste de elogios, podes sentar ao meu lado. – disse ela.
-És muito gentil, milady. –tomou a mão de Cassandra e deu-lhe um beijo.
-Como me encontraste aqui, Samuel? –perguntou la Sorcière, abrindo um belo sorriso.
-Como já disse a maravilhosa Senhorita Morgana, és extremamente previsível. –falou Diego, lo Farsante.
Cassandra tira sua mão da dele.
-O que queres?
Ele aconchega-se mais perto dela, passando seu braço entorno dos ombros de Cassandra.
-Só queria apreciar a visão de seu belo corpo, la Sorciére. –diz olhando para ela e brincando com seus cabelos.
-O que queres?! –ela vira olhando enfurecida para ele.
Ele sorri deliciando-se com aquilo.
-Tu ficas tão linda enraivecida.
-E tu ficas terrível de qualquer maneira!
Ele sorri calmamente.
-Seus olhos ainda não aprenderam a mentir, chérri.
Cassandra levanta-se do banco e caminha a passos largos até seu carro.
-Tenho um recado de Ísis!
Isso a fez parar instantaneamente.
~*~
Caminhando por ruas escuras, com as mãos nos bolsos do casaco, os cabelos soltos ficando cheios de neve, Morgana chega a um cabaré, entra, sorri e nega para três ou quatro jovens que a pediam um tango ou ofereciam vinho. Sobe as escadas para o segundo andar das estalagens.
Ao abrir a porta, depara-se com um quarto escuro, duas largas camas de lençóis brancos e vermelhos em cetim, uma janela fechada coberta por espessas cortinas negras, um armário pequeno em madeira escura, ao lado de um comprido espelho encaixado noutra porta.
A vampira senta-se sobre uma cama, os braços envolvendo os joelhos, recosta a cabeça sobre os mesmos e lembra-se de quando aguardava sentada sobre uma escada em espiral feita de pedra escura e desgasta.
Ela tamborilava os dedos nos degraus, impaciente, com a outra mão apoiando o rosto. Estava tão escuro, que apenas as faíscas esverdeadas de seus olhos eram visíveis da entrada do beco onde acertara encontrar Uyen.
- Boa noite, Cassandra. – O homem atrás de Morgana sussurra, com ligeira ênfase no final.
- E o senhor, sempre me assustando.
- Como te assustei? Nem mesmo tentei sufocar-te ou atirei-te na parede como das últimas vezes! – Ele beijava-lhe a nuca lentamente, procurando a boca.
- O que é uma pena. - Ela vira-se para ele, beijando-o pelo pescoço, queixo... - Adoraria medir sua imortalidade... Sem desistência dessa vez. – Ao mesmo tempo em que deslizava os dedos por debaixo do suéter até friccionar a cicatriz que seguia da cintura ao pescoço, arrancando do rapaz uma expressão de dor específica dos olhos azuis ofuscantes, mas que logo é substituída pelo sorriso sarcástico de costume.
- Sempre tão agressiva e ingrata, ficas ainda mais sexy me abrindo o peito, Contei-te?
- Não. Pra falar a verdade, Ainda não... – Morgana senta-se sobre ele atravessando uma perna pelas dele e o beija, enfim, deixando que as mãos do rapaz passeiem por seu corpo. – Mas tenho minhas dúvidas de que a rainha Ísis o mandaria aqui apenas para avisar-me. – A jovem replica, pondo-se de pé e afastando-se do rapaz.
- De fato... – O homem revira os olhos e levanta-se também...
-O que tu fazes aí, sentada olhando pro teto? Que coisa mais inútil... - fala Cassandra que agora entrava no quarto e tirava o sobretudo cheio de neve. –Nevou, sabias? Pelo visto sim. – Ela tira pequenos flocos de neve dos cabelos negros de Morgana.
Cassandra sentasse na frente da amiga, a mesma ainda olhando para o vazio com uma expressão que estava entre confusa e preocupada.
-Morgana... -ela balança a mão branca na face da outra.
-Hã? -Morgana espanta-se com a mão frente ao rosto e vira-se para a amiga. - Ah, é você? - fala com desdém - e então? Mais caçadas? - a vampira levanta-se e caminha pelo quarto com passos apressados, e uma falsa naturalidade.
-Como consegues correr a passos largos num quarto tão pequeno? -pergunta, olhando Morgana andar em círculos. -Acabei não caçando, encontrei Samuel.
Ah, mesmo? e como ele está? - a jovem sorri, esquecendo-se das desavenças entre os dois. - Ah, sim. Você vira uma criança de dois anos perto dele, havia me esquecido.
-Ele é... É... Não viro uma criança de dois anos perto dele! - Puxa seu caixão fazendo um estrondo tremendo.
-Não, claro que não. - Morgana escolhe, por fim, um lugar em frente à La Sorciére, encarando-a.
Cassandra olha pros lados, constrangida.
-Ele estava muito bonito hoje...
-Ele é sempre muito atraente; Chérri. - Morgana ri.
-Mas isso não vem ao caso! - ela pigarreia - O que importa é que o bendito trouxe um recado de Ísis.
-Deve ser a sensualidade latina... Numa escultura grega, convenhamos. - Morgana se detrai por um momento e volta à amiga. - O que ela quer com você? Cassandra, você não fez nada de errado, fez?
-Não fale assim dele, ele é um homem grotescamente... Bonito e forte...
-Aham.. E o que mais? - Morgana ainda a encarava risonha.
-A lua combina com ele, sabe? Sinceramente não sei como ele consegue permanecer moreno depois de tantos anos... – La Sorciére fala com os olhos cintilando.
-E isso tudo porque você o odeia, não? - deita-se na cama, puxando o caixão que estava debaixo da mesma.
- Claro que o odeio!! Aquele tratante!! Não podemos confiar em seus recados, principalmente num que é aparentemente positivo... - diz vagarosamente.
- Diga-me logo o que ele veio tratar de tão importante que não pudesse ser desculpa para me ver. - ela agora abrira o caixão e tirava o sobretudo sujo com a neve.
- Oh, sim é claro. Queria fazer um suspense, já que é uma boa notícia. - Cassandra senta em cima de seu caixão preto com as pernas cruzadas e um sorriso vitorioso no rosto. - É bem possível que você não acredite.
- Diego dando-te uma boa notícia? É, de fato, quase impossível. - Morgana falava enquanto olhava-se num espelho, penteando os cabelos negros e livrando os da neve parisiense e de um pouco do cheiro de Uyen. - Vamos, Cassandra! Conte-me logo! - Já se vira curiosa.
Cassandra põe seu dedo indicador, digno de uma excelente pianista, nos lábios pálidos e olha pra o teto, pensativa.
-E se não fosse verdade, o que eu poderia fazer para puni-lo?
-Pensamos nisso depois... - a jovem senta-se ao lado de Cassandra sobre o caixão. - Agora me fale.
La Sorciére olha para Morgana e sorri radiante.
- Diego disse-me que Ísis me permitiu ter uma cria, mas apenas com sua autorização. Você terá de ajudar-me a cuidar dela e a ensinar tudo o que sabemos. - ela se afasta um pouco, assustada com as fagulhas de ódio que pulam dos olhos de Morgana. - Foi o que Diego disse; Morgana! Não estou inventando!
- Mas você já é adulta. - Morgana solta entre dentes, após um minuto ou dois de puro e pesado silêncio.
- Infelizmente, ao ver de Ísis ainda sou uma leiga... - ela revira os olhos, insatisfeita com tudo aquilo, gostaria realmente de receber o respeito que merece.
- Se é assim, que só tenha uma cria quando for madura! - Morgana levanta-se e anda pelo quarto ainda mais rapidamente - Por que EU tenho de adotar mais uma? Você já dá trabalho sem ajuda de outra rebelde na família. - a olha com desdém que se converte em um sorriso. - Me convença.
Cassandra balbuciou algo inaudível.
- Mas tentar convencê-la é o mesmo que negar ter uma cria! - Ela olha para os cômodos do quarto procurando algum apoio, aparentemente nem o armário e, muito menos a cama, estão prestando atenção à conversa.
- Só não diga que não lhe dei uma chance. - Morgana pisca e deita no caixão, as mãos unidas sobre o peito, o sorriso cínico nos lábios.
Cassandra fica estática. Com pensamentos oscilando entre o quanto Diego estava atraente nesta madrugada e como iria convencer Morgana. Levantou-se, achando que se movimentando um pouco seu cérebro poderia pensar algo descente. Não deu muito certo. Tirou o sobretudo preto e pegou no armário, que havia lhe dado as costas num momento tão preciso, um vestido de seda vermelho, curto e com detalhes rendados.
O vestiu apressadamente e pegou a escova de Morgana pra pentear os cabelos.
- Já estas dormindo?
- Não consigo.
- Encontraste Uyen por acaso? - perguntou Cassandra. Ela nunca vira Uyen, mas sabia como Morgana ficava abalada com suas visitas.
- Queres sair ainda? Vamos caçar, esperar os primeiros alertas vermelhos no céu para vir deitar... - ela se apóia na beira do caixão, sem perceber a amiga já se arrumando.
Cassandra sorri - O que estas esperando?Vamos morder rapazes ruivos e charmosos, ou não?
A lua ainda brilhava soberana, e o clima ia tão aconchegante que Morgana preferiu caminhar a pé. O vento fazia voar o sobretudo, como se quisesse castiga-lo por manter as mãos delicadas e pálidas da vampira ao abrigo de qualquer rajada. Ao estalido metálico do salto sobre a pedra, o cabelo da mulher também parecia planar sutilmente [tal como as palavras escapuliam dos dedinhos serelepes da autora...]. Não negaria que estava nervosa, ou um tanto perturbada, muito menos que Uyen sempre a deixava assim, mas daquela vez, o assunto tratado também era incômodo, e era sobre ele que falaria a Cassandra, assim que parasse de morder os lábios com aquela veemência e normalizasse a própria respiração.
(Cassandra por Amanda Quaresma)
domingo, 3 de fevereiro de 2008
A Menina do Cata-Vento
A madrugada de 12 de Outubro de 1978, pesadas gotas de água caindo sobre a terra, uma mulher gritando e uma criança nascendo... Morta.
Hannah, a tão esperada criança dos Harrington, nascera morta, e a morte de sua própria mãe fora em vão. Friederich ajoelhou-se sobre a cama, perdera as duas... As duas! Perdera tudo!
Naquela mesma noite, não tão longe dali, uma criança era abandonada pelos pais. Feiticeiros, praticantes das artes das trevas, largaram a recém-nascida em orfanato qualquer.
E lá cresceu a menina mais estranha do orfanato, com gostos, trejeitos e, até mesmo dons, diferentes do resto das crianças.
Aos 9 anos, a maioria das crianças que ela conhecia já havia sido adotada, era a órfã mais antiga da casa e já se acostumara com isso.
No verão, corria para fora do orfanato bem cedo, gostava de testemunhar o nascer do sol ao ar livre! Deitada sobre a grama da pequena praça, ocupava-se em dar nome às formas das nuvens, estudar as constelações, ou mesmo apreciar as rajadas de vento, mais leves, mais fortes, suaves, calmantes...
Certo dia, brincava, sob o abrigo do pequeno coreto, de estudar o fenômeno do cata-vento, que não girava na direção do vento, mas de acordo com o desejo da menina. Aquilo a intrigava, saindo do coreto, caminhava distraidamente a procura de qualquer brisa mais forte, para testar o cata-vento, quando esbarrou com um alto senhor. Era magro, vestia um sobretudo preto, que destoava completamente do sol quente que dominava a praça. Parecia triste - avaliava a menina - mas ainda sim, um bom homem, apaixonou-se imediatamente, era o homem que procurava. Sentindo que ele iria compreender, ergueu o cata-vento para mostrar ao moço, com uma distinta expressão de dúvida no olhar. Ele abaixou-se, encostando os joelhos na grama, pra ficar da altura dela. Se olharem por muito mais que minutos. Liam-se e se compreendiam, reconhecendo-se: Acharam o que, há tanto, procuravam.
Friederich Von Harrington adotou Hannah, que se mudou para a mansão Von Harrington naquele mesmo dia, trocando seu nome de Hannah para Hanna H.
E foi lá que viveu os momentos mais felizes de sua vida, mais preenchidos com risadas, com brincadeiras. Foram anos cheios do correr na grama, do rir de cócegas sob as árvores, do pendurar-se nas costas do homem que correria com ela ao redor do riacho, do mergulho nas águas geladas pouco antes de dormir, e logo depois de acordar. Foi lá que percebera tudo se curvava à sua vontade, e que não só por sua vontade girava o mundo.
Aos 11 anos, durante uma divertida tarde em Dublin, na casa de férias da família, aprendeu que o estranho sangramento de que estava sofrendo viria todos os meses, e aprendeu com a governanta a lidar com ele. A Habilidade pra seus dons fora desenvolvida com o tempo, ao mesmo tempo em que esquecida, e trocada pelo mundo real.
Em 1997, a brusca e enfática morte do pai. A mansão, a grama e as árvores, tal qual a risada, fora trocada por um apartamento em Manhattan. Morou sozinha em Nova York por apenas 1 ano, e logo se mudou novamente. Dessa vez, por ter sido admitida na universidade de Cambridge, UK, onde cursou história da arte.
Atualmente, mora em Londres, mantendo uma casa em Hamburgo e outra em Roma. Encontra-se freqüentemente viajando pela Europa, escrevendo sua tese de PhD. Além de ter escrito um livro de ensaios seus, sobre a filosofia e a história da arte medieval. Nunca mais usara de seus dons, tendo os esquecido na grama fofa da mansão do pai, já há muitos anos atrás.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
Anita Rosier
Anita sempre foi muito impaciente e muito serelepe, a mais agitada e que queria ir à frente sempre, como se mal pudesse esperar para dar cada passo em sua vida, como se parar e descansar fosse perder um precioso tempo que logo vai embora. Não, Anne não podia esperar, precisava estar sempre aprontando uma nova com seu irmão ou uma de suas primas, precisava sair correndo pela casa para lembrar aos moradores que ainda estão vivos, precisava tomar banho de chuva quando chovia e cheirar a noite quando anoitecia.
Naquela manhã, nada seria diferente. Antes das seis ela já havia despertado, o frio conseguiu aquieta-la por alguns minutos, mas logo ela estava desvencilhando das cobertas e correndo para a janela na ponta dos pés. Descalça, para não provocar ruídos, ela colou o rosto no vidro para ratificar que chegara enfim o melhor acontecimento do ano. Sorria tamborilando as unhas no vidro, como se cumprimentasse a grama dos terrenos a redor do casarão: era um terreno grande e geralmente usado para celebrar festas e noites memoráveis quando seus parentes chegavam da França, mas também onde todos os netos Rosier acampavam, jogavam quadribol, liam, estudavam, corriam, e brincavam; além de ser o lugar preferido de Anne para passar todo o seu tempo livre durante as férias.
A menina dava saltinhos de excitação e deixou escapar um gemido, que logo repreendeu cobrindo a boca cor-de-rosa com a mão. Dando uma última olhadela para o gramado, apressou-se em vestir um hobby azul e ainda descalça, ganhou os corredores do casarão. Ainda estavam todos em seus quartos e ela não se preocupou em esbarrar com ninguém, ganhando velocidade conforme percorria os longos corredores, descia as escadas no mesmo ritmo, só parando quando quase dá de encontro com uma parede na última ala, a mais distante de seu quarto. Toda essa distância – sim, pois com o tamanho do prédio, esta era, sim, exorbitante – era proposital, foi uma decisão de seu pai como o mais novo castigo aplicado na garota. Mas esta ainda assim não sossegou e continuou vendo o irmão o dia todo, por mais doente que sabia que ele estava, precisava chamá-lo para assistir com ela a primeira neve do inverno.
Virou a maçaneta impacientemente, mas estava trancada.
- Ah, vai, amado, me deixa entrar... – Ela gemia enquanto sacava a varinha apressadamente e então murmurou o feitiço que Alan lhe ensinara pra entrar em seu quarto quando ele não estivesse.
A porta abriu-se instantaneamente e sem soltar nenhum ruído, o que fora planejado para que Adolf não desconfiasse das constantes visitas da garota.
- Venha, Alan, é a primeira neve do inverno! – Ela sussurrava enquanto trancava novamente a porta por dentro, visto que o irmão não respondeu, virou-se para a cama. - Aposto que está aprontando-me um susto – pensou, maneando a cabeça para os lados. Afinal, ele nunca perdera o espírito jovial mesmo com a idade e a maturidade lhe batendo a porta. No intuito de pega-lo primeiro, Anne pulou na cama, puxando as cobertas do rapaz e gritando: - Ahá! Mas o susto quem levou foi ela, e a surpresa dele foi a mais funesta possível.
- Meu amado, não brinca assim comigo... - Ela dizia no ouvido do irmão, mas já sabia que não era uma brincadeira. Deitada sobre o corpo do rapaz, beijava seu rosto gelado, que estava tão pálido e seco que ela achou que fosse desmaiar, mas precisava se despedir. Beijava o da testa ao queixo, dando especial atenção à boca, a qual mordiscou pouco antes de levantar-se, ficando sentada no pé da cama, para contemplar o cadáver de seu irmão, inconscientemente levou as mãos à boca. Sabia da situação de seu irmão, mas nunca preveria que ele estivesse tão mal. Olhou a redor do quarto, desolada, e encontrou respingos de sangue por todo o chão, os seguiu e eles a levaram até o banheiro. O pequeno recinto estava sujo de sangue do chão às paredes, com ênfase para a pia que parecia ter sido inundada por toda a cor que faltava ao irmão. Esta foi a última cena que o estômago de Anne conseguiu presenciar e esta corria para a porta do quarto, evitando olhar novamente para o irmão, quando da porta surge de seu pai. Ao semblante do pai que acabara de ver Alan na cama, os joelhos de Anita cedem e esta cobre o rosto com as mãos, chorando compulsivamente aos pés de do imóvel Adolf, que ainda não conseguira reagir.
A manhã da primeira neve tornara-se palco da tragédia que desintegrara a família e que marcava a vida da chorosa Anita para sempre.