segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Anita Rosier

Uma névoa sublime e vagarosa rodeava o casarão dos Rosier desde a madrugada, fazia uma manhã fria e silenciosa e todos dormiam no interior da casa. O Vento era o único a falar e assobiava sua canção. As folhas que restaram do último outono e seus galhos dançavam ao som do vento como num grande baile da natureza, e como que para finalizar o espetáculo, a Neve se juntou a eles. Caindo leve e em pequenos bocados que se espalhavam e logo cobriram todo o gramado. Tudo isso podia ser registrado das vidraças do quarto de Anne.
Anita sempre foi muito impaciente e muito serelepe, a mais agitada e que queria ir à frente sempre, como se mal pudesse esperar para dar cada passo em sua vida, como se parar e descansar fosse perder um precioso tempo que logo vai embora. Não, Anne não podia esperar, precisava estar sempre aprontando uma nova com seu irmão ou uma de suas primas, precisava sair correndo pela casa para lembrar aos moradores que ainda estão vivos, precisava tomar banho de chuva quando chovia e cheirar a noite quando anoitecia.
Naquela manhã, nada seria diferente. Antes das seis ela já havia despertado, o frio conseguiu aquieta-la por alguns minutos, mas logo ela estava desvencilhando das cobertas e correndo para a janela na ponta dos pés. Descalça, para não provocar ruídos, ela colou o rosto no vidro para ratificar que chegara enfim o melhor acontecimento do ano. Sorria tamborilando as unhas no vidro, como se cumprimentasse a grama dos terrenos a redor do casarão: era um terreno grande e geralmente usado para celebrar festas e noites memoráveis quando seus parentes chegavam da França, mas também onde todos os netos Rosier acampavam, jogavam quadribol, liam, estudavam, corriam, e brincavam; além de ser o lugar preferido de Anne para passar todo o seu tempo livre durante as férias.
A menina dava saltinhos de excitação e deixou escapar um gemido, que logo repreendeu cobrindo a boca cor-de-rosa com a mão. Dando uma última olhadela para o gramado, apressou-se em vestir um hobby azul e ainda descalça, ganhou os corredores do casarão. Ainda estavam todos em seus quartos e ela não se preocupou em esbarrar com ninguém, ganhando velocidade conforme percorria os longos corredores, descia as escadas no mesmo ritmo, só parando quando quase dá de encontro com uma parede na última ala, a mais distante de seu quarto. Toda essa distância – sim, pois com o tamanho do prédio, esta era, sim, exorbitante – era proposital, foi uma decisão de seu pai como o mais novo castigo aplicado na garota. Mas esta ainda assim não sossegou e continuou vendo o irmão o dia todo, por mais doente que sabia que ele estava, precisava chamá-lo para assistir com ela a primeira neve do inverno.
Virou a maçaneta impacientemente, mas estava trancada.
- Ah, vai, amado, me deixa entrar... – Ela gemia enquanto sacava a varinha apressadamente e então murmurou o feitiço que Alan lhe ensinara pra entrar em seu quarto quando ele não estivesse.
A porta abriu-se instantaneamente e sem soltar nenhum ruído, o que fora planejado para que Adolf não desconfiasse das constantes visitas da garota.
- Venha, Alan, é a primeira neve do inverno! – Ela sussurrava enquanto trancava novamente a porta por dentro, visto que o irmão não respondeu, virou-se para a cama. - Aposto que está aprontando-me um susto – pensou, maneando a cabeça para os lados. Afinal, ele nunca perdera o espírito jovial mesmo com a idade e a maturidade lhe batendo a porta. No intuito de pega-lo primeiro, Anne pulou na cama, puxando as cobertas do rapaz e gritando: - Ahá! Mas o susto quem levou foi ela, e a surpresa dele foi a mais funesta possível.
- Meu amado, não brinca assim comigo... - Ela dizia no ouvido do irmão, mas já sabia que não era uma brincadeira. Deitada sobre o corpo do rapaz, beijava seu rosto gelado, que estava tão pálido e seco que ela achou que fosse desmaiar, mas precisava se despedir. Beijava o da testa ao queixo, dando especial atenção à boca, a qual mordiscou pouco antes de levantar-se, ficando sentada no pé da cama, para contemplar o cadáver de seu irmão, inconscientemente levou as mãos à boca. Sabia da situação de seu irmão, mas nunca preveria que ele estivesse tão mal. Olhou a redor do quarto, desolada, e encontrou respingos de sangue por todo o chão, os seguiu e eles a levaram até o banheiro. O pequeno recinto estava sujo de sangue do chão às paredes, com ênfase para a pia que parecia ter sido inundada por toda a cor que faltava ao irmão. Esta foi a última cena que o estômago de Anne conseguiu presenciar e esta corria para a porta do quarto, evitando olhar novamente para o irmão, quando da porta surge de seu pai. Ao semblante do pai que acabara de ver Alan na cama, os joelhos de Anita cedem e esta cobre o rosto com as mãos, chorando compulsivamente aos pés de do imóvel Adolf, que ainda não conseguira reagir.
A manhã da primeira neve tornara-se palco da tragédia que desintegrara a família e que marcava a vida da chorosa Anita para sempre.

Um comentário:

Anônimo disse...
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