“Hanna Von Harrington, é como ficou conhecida, a pequena Hannah, que já não era mais tão pequena”.
A madrugada de 12 de Outubro de 1978, pesadas gotas de água caindo sobre a terra, uma mulher gritando e uma criança nascendo... Morta.
Hannah, a tão esperada criança dos Harrington, nascera morta, e a morte de sua própria mãe fora em vão. Friederich ajoelhou-se sobre a cama, perdera as duas... As duas! Perdera tudo!
Naquela mesma noite, não tão longe dali, uma criança era abandonada pelos pais. Feiticeiros, praticantes das artes das trevas, largaram a recém-nascida em orfanato qualquer.
E lá cresceu a menina mais estranha do orfanato, com gostos, trejeitos e, até mesmo dons, diferentes do resto das crianças.
Aos 9 anos, a maioria das crianças que ela conhecia já havia sido adotada, era a órfã mais antiga da casa e já se acostumara com isso.
No verão, corria para fora do orfanato bem cedo, gostava de testemunhar o nascer do sol ao ar livre! Deitada sobre a grama da pequena praça, ocupava-se em dar nome às formas das nuvens, estudar as constelações, ou mesmo apreciar as rajadas de vento, mais leves, mais fortes, suaves, calmantes...
Certo dia, brincava, sob o abrigo do pequeno coreto, de estudar o fenômeno do cata-vento, que não girava na direção do vento, mas de acordo com o desejo da menina. Aquilo a intrigava, saindo do coreto, caminhava distraidamente a procura de qualquer brisa mais forte, para testar o cata-vento, quando esbarrou com um alto senhor. Era magro, vestia um sobretudo preto, que destoava completamente do sol quente que dominava a praça. Parecia triste - avaliava a menina - mas ainda sim, um bom homem, apaixonou-se imediatamente, era o homem que procurava. Sentindo que ele iria compreender, ergueu o cata-vento para mostrar ao moço, com uma distinta expressão de dúvida no olhar. Ele abaixou-se, encostando os joelhos na grama, pra ficar da altura dela. Se olharem por muito mais que minutos. Liam-se e se compreendiam, reconhecendo-se: Acharam o que, há tanto, procuravam.
Friederich Von Harrington adotou Hannah, que se mudou para a mansão Von Harrington naquele mesmo dia, trocando seu nome de Hannah para Hanna H.
E foi lá que viveu os momentos mais felizes de sua vida, mais preenchidos com risadas, com brincadeiras. Foram anos cheios do correr na grama, do rir de cócegas sob as árvores, do pendurar-se nas costas do homem que correria com ela ao redor do riacho, do mergulho nas águas geladas pouco antes de dormir, e logo depois de acordar. Foi lá que percebera tudo se curvava à sua vontade, e que não só por sua vontade girava o mundo.
Aos 11 anos, durante uma divertida tarde em Dublin, na casa de férias da família, aprendeu que o estranho sangramento de que estava sofrendo viria todos os meses, e aprendeu com a governanta a lidar com ele. A Habilidade pra seus dons fora desenvolvida com o tempo, ao mesmo tempo em que esquecida, e trocada pelo mundo real.
Em 1997, a brusca e enfática morte do pai. A mansão, a grama e as árvores, tal qual a risada, fora trocada por um apartamento em Manhattan. Morou sozinha em Nova York por apenas 1 ano, e logo se mudou novamente. Dessa vez, por ter sido admitida na universidade de Cambridge, UK, onde cursou história da arte.
Atualmente, mora em Londres, mantendo uma casa em Hamburgo e outra em Roma. Encontra-se freqüentemente viajando pela Europa, escrevendo sua tese de PhD. Além de ter escrito um livro de ensaios seus, sobre a filosofia e a história da arte medieval. Nunca mais usara de seus dons, tendo os esquecido na grama fofa da mansão do pai, já há muitos anos atrás.
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