sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

A Conta

    A conta é um objeto miúdo, redondo, colorido ou não, bonito sempre, definido pelo dicionário por “miçanga”, mas o dicionário não entende nada de contas.
    Essa era ousada, a que estava na minha mão. Olhou-me meio ladina, me destratou, não gostei dela, não. Foi pro chão. Foi lá que ela começou a girar, e o brilho dela foi ficando mais intenso, e estava claramente irritada, mas eu não aceito provocação. Com a ponta fina do escarpam dei-lhe um leve toque, um empurrãozinho, e a conta voou para a escada, e ela girava enquanto o fazia, queria me desfilar suas acrobacias, penso que fiz até mal em dá-la tanta liberdade.
     Chegando à escada, aí que a pequena me espantou. Ensaiou um pulo rumo ao andar de baixo, voltando, amedrontada – aposto. Agora ela girava em torno de si e em torno do nada que precedia a escada, estando na iminência de cair por várias vezes, unicamente para que eu me assustasse. A Conta pensa que eu ia sentir-me mal por tê-la chutado, ai conta miserável, pois eu queria era ver a queda. Ajoelhei perto da escada e assisti – visão aérea – ao espetáculo da conta saltitante, que começando a ficar oscilante, decidiu por saltar de vez.
    E foi um salto mortal, daquele de ginasta em olimpíada, que solta um “ó” da platéia que, no caso, era eu – de boca entreaberta. Por isso que conta não participa de competição! Sempre tive essa curiosidade, e mamãe nunca soube responder. Deu cada cambalhota rumo ao degrau seguinte que eu cheguei a me arrepiar. E conta não morre, não? Não tem dor de cabeça, não sente enjôo de rodar assim? Porque eu me rendo logo, mais às dores do que à morte, felizmente.
    A seqüência de arcos que ela descreveu no ar, eu não sei descrever no papel, mas posso afirmar que foram muitas e muito graciosas. Meus olhos as descreveram ao mesmo tempo, não desgrudavam da tal da continha. Fato que eu não percebi na hora, mas que deduzi por fim, é que eu me levantei e fui descendo a escada ao passo – ao salto – da Conta, porque quando ela concluiu sua apresentação, eu já estava lá na sala, vendo-a girar pelo chão até bater no rodapé e rodopiar em direção ao espelho. O que foi mais um de seus saltinhos, como é que um rodapé ia atirar uma conta sobre a penteadeira da sala?
    O que sei é que ela chegou lá, e olhou-se pálida, perolada, e desequilibrada. Pareceu um passo falso, e ela tornou a cair. Aí sim, ela me olhou mais expressiva, era o sonho da Conta, coitada, e eu pensando que ela era desaforada mesmo, só queria atenção e espaço pra ter seu próprio espetáculo descrito de forma sucinta e prática, mas memorável. E na queda ela terminou de me embasbacar, e girou e caiu e quebrou e fez tudo o que uma conta não faz por um conto.

N.A: A autora nunca dialogou qualquer ser inanimado, parece gozar das perfeitas faculdades mentais e, particularmente, não gosta de contas.

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