sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Sophie

Ficava dentro de uma casa, como não podia deixar de ser. Uma casa de taipa, cuja madeira pintada de azul encontrava-se descascada e corroída pela traça do tempo. A sala era pequena e entupida de sofás, onde nobre cavalheiros como eu esperavam a própria vez. Ou a minha vez. Quem sabe se eu caísse morto e desistisse… Mas a sala já havia sido atravessa, tal como o corredor estreito, de onde ouvia-se a gota de chuva socar as telhas e beijar suavemente as janelas. Uma senhora de boca de peixe e que cheirava a perfume francês falsificado me guiou até sua porta. E das frestas já saiam luzes rosa-avermelhadas. Sophie abriu a porta silenciosa, e moveu-a lentamente, para que eu me adaptasse ao ambiente que surgia na minha frente, tão distante da madeira azul e das gotas de chuva. As paredes cor-de-rosa seriam mais claras não fossem os lenços que envolviam o lustre, formando feixes de luz róseos, rubros e alaranjados. Estes coloriam a mobília e os lençóis da maior cama que eu já vi. “Um cliente por vez, hein?”. Mas nem cor nem móvel daquele quarto me tiraria a atenção de Sophie. Dos seus olhos grandes e escuros, tão infantis que te levam a perguntar o que ela faz nessa vida. Seus cabelos eram negros, ainda assim mais claros que os olhos. Com certo volume e comprimento até a cintura, emolduravam uma escultura de mármore. tão branca e bem talhada que mais parecia a própria Afrodite, coberta de seda japonesa, para nos afogar em curiosidade. Ao passo que dei para dentro do quarto, exibiu um sorriso tímido num semblante triste. Por mais cativado que estivesse por seus olhos de menina, maior era a certeza de que, se essa era a vida dela, nunca mais gastei dinheiro tão bem empregado!

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