Eles vivem em bando, moram em casas horrendas perto de um pântano... As casas são feitas de um material que não se sabe o que é; supostamente, dejetos deles mesmos.
E eles têm um líder. Praticam um ritual esportivo que inclui caçar fadas e ver quem as cospe mais longe (o que causa uma guerra interna entre esse povo). Não sabem exatamente o porquê do uso das fadas, mas acham que é pelo gosto adocicado terrível que elas têm. Vários gnomos já morreram durante essa prática... O vencedor é o líder.
O líder atual é um ser gosmento, com a pele tão negra quanto um céu sem estrelas, com verrugas em toda face, se é que pode ser chamada de face, pois a rasgo cheio de dentes afiados pode ser facilmente confundido com seu ânus. – O tom grave na voz de Selene fazia a pele felpuda e bronzeada das pequenas fadas, ouriçar.
- É mentira. – Antecipou Soleil, a irmã de Selene – ao que as outras fadas se sobressaltaram. – Ela só quer assustar vocês.
- Deu certo comigo. – A minúscula Sil replicou no que mais pareceu um pio.
- Porque você é pequena e ingênua. – O sorriso de Soleil iluminou o ambiente.
Instalaram-se num troco de árvore morta que pretendiam restaurar. Esse era o trabalho delas: Proteger e renovar a vida destruída pelos humanos e nunca serem pegas por eles. Era com esse propósito que tinham a propriedade de transformar-se num pequeno inseto, idêntico a um vaga-lume a olho nu.
Durante a noite, elas eram as únicas luzes na floresta, motivo por que outros viajantes sempre procuravam árvores habitadas por elas. As ninfas eram, também, os últimos seres que um malfeitor da natureza queria encontrar: Com seu tamanho e sua energia, eram capazes de importunar um visitante indesejado por até 72 horas ininterruptas com pequenas mordidas e afins.
Ao abraçar Sil, o brilho alaranjado de suas asas misturou-se com a cor-de-rosa da irmã menor, que intensificou.
- Ela acredita porque é a verdade, Sol, eu os vi! E vieram em minha direção, voei que minhas asas não agüentaram, e minhas costas ainda doem. Vocês precisam acreditar em mim! – Voou por alguns segundos e caiu, o bumbum descoberto de saia batendo na palha e a expressão aborrecida. Selene era a mais bonita das fadas menores, talvez por seus olhos azul-ofuscantes, ou pelos cabelos sempre bem dispostos. Estes eram compridos e negros, mas sempre dispostos num penteado caprichado. Aquele dia, por exemplo, exibia finas tranças saindo de um rabo de cavalo, gotículas de orvalho cristalizadas adornavam-nas em toda a extensão, que percorria o ombro e roçava a cintura da moça.
Eram muito diferentes, as duas: Selene dos cabelos negros e noturnos e olhos frios como a tez, e Soleil da pele dourada, com olhos tão amendoados que mais pareciam mel em seu rosto e os cabelos rebeldes e arrepiados, curtos e com tendência a pegar fogo literalmente quando ela se enfezava. Sil viera como uma maneira de equilibrar as irmãs, como uma miscelânea de fogo e gelo, mergulhada em ternura e delicadeza infindas. Ainda assim, as constantes discussões entre as gêmeas não cessavam: Logo se puseram a debater perante todas as outras fadas, que assistiam agitadas. Fazia mesmo uma noite muito calma, e a discussão pretendia entretê-las até o amanhecer.
* * *
- Estão ali... – Seu sorriso foi acompanhado pelo grunhido de outros companheiros. Comentários excitados os sucederam como sempre ocorria nesse período do ano. Os gnomos eram derradeiras lendas para as ninfas, mas estas não passavam de um objeto desportivo para os pequenos monstros, mais cobiçado durante a corrida das fadas – ritual descrito fielmente por Selene, a primeira fada sobrevivente. Fugira muito agilmente, era verdade, mas os gnomos eram ainda mais experientes, e usaram-na para chegar à árvore onde se escondiam. O plano nunca fora utilizado antes e todos ainda congratulavam seu líder por tal idéia. Olaf, o líder daquele ano, teria vantagem em relação aos outros, como era costume gnomo, e pretendia pegar Selena para si antes mesmo de a corrida começar.
(Por Amanda Quaresma)
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