Como se os minutos corressem de Alice, por qualquer motivo pessoal, a aula de poções voava enquanto a Veritaserum de Calligaris não manifestava intenção nenhuma de chegar à consistência de uma poção decente. Talvez ela não tivesse mesmo nenhum dom para os experimentos. Talvez seu sangue fosse tão fajuto quanto os sonserinos ali presentes deviam achar. Talvez tivesse reservado o sangue trouxa do pai especificamente para as aulas de porções, nem sabia ao certo. Mas ter aula junto da Slytherin era sempre uma pressão a mais sobre a mestiça. Não conhecia ninguém de lá, também ninguém da Corvinal, sentia-se completamente sozinha. Apesar de tudo o que a disseram sobre a Slytherin durante a transferência para Hogwarts, eram os alunos, sob os olhos de Alice, mais centrados, mais educados, e, embora ela não pretendesse admitir, mais interessantes.
Interessantes porque a intimidavam e instigavam muito mais que quaisquer outros, da Grifinória, Lufa-lufa, ou da própria Corvinal. Não admitiria porque não pretendia envolver-se com eles. Eram conhecidos, até na Beauxbatons – escola que, ela acabava de concluir, não dava base nenhuma para o estudo e preparo de poções e que, portanto, agora, dava à menina mais um motivo para odiá-la - por serem preconceituosos em relação a híbridos como ela. Não via fundamento nenhum nessa perseguição. Mas essa é e sempre foi a grande alavanca do preconceito, a falta de fundamento!As penas de dedo-duro caíram todas no chão durante esses minutos de distração tão típicos da menina. Ajoelhou-se, e só sentiu-se mais humilhada em relação à classe. Com todas as penas recolhidas, atirou-as no caldeirão sem nenhum jeito e com muita raiva. Estava decidida, ia dedicar a sua vida à caça de dedo-duros, foi então que... Como por mágica, que era o que realmente ocorria ali, a poção foi ganhando uma textura suave... Como a da água, e ficou incolor, como a amostra sobre a mesa do professor. Reprimindo um grito de excitação, retirou da mochila o fino recipiente de vidro, que encheu de poção até a borda. Agradeceu em pensamento ao pai trouxa, por ter lhe deixado ficar com o temperamento instável da mãe.
A sala inteira olhava para Alice com curiosidade e admiração. Ela era a única que havia conseguido fazer a poção. Severus, que anotava observações em cima de observações no seu livro de poções muito usado, se assustou quando a menina gritou, e gritou junto, com sua voz meio rouca e grave, muitos alunos olharam para ele também, mas não com o mesmo olhar de admiração. Quando isso aconteceu, ele ficou muito tímido e como estava sentado, colocou o rosto muito próximo do livro de poções para que não vissem que seu rosto estava vermelho.
Quando terminou a aula de poções, e todos já haviam conseguido fazer a poção, Severus foi até a menina que ainda guardava suas coisas e com muita vergonha disse: - Oi, você deve ser Alice. Percebi que você fez muito rápido a sua poção... Como conseguiu em tão pouco tempo? - Perguntou o garoto, curioso.
Após o preparo da porção, tudo pareceu ficar mais leve e mais fácil para ela, até mesmo estar na presença dos sonserinos. Caminhou tão empolgada até o professor que quase derrama a poção pelo caminho, pondo tudo [ou parte de tudo] a perder, mas conseguiu conter-se, a parar de tremer aquela mão, até chegar à mesa de Slughorn, onde depositou o frasco rapidamente, sem sequer virar para encarar o professor.
Voltou lentamente, tentando passar o tempo, sentou-se em silêncio e esperou a aula terminar. Ficou estática por quaisquer 5 minutos e desistiu: Retirou de sua mochila um pequeno livro, ‘O Anticristo – Friederich Nietzsche’ e, cruzando as pernas, pôs-se a ler. Era uma amante da filosofia trouxa, admitia, e pretendia seguir carreira nessa área... Talvez caindo na psicologia como o pai. Mal podia esperar pelas aulas de estudo dos trouxas! E, falando em esperar, a menina mergulhou tão profundamente no livro, que deixara o tempo passar até demais. Franzia o cenho, quase que chocada com o que lia.
Fechava o livro, fitava a mesa com tal intensidade que poderia perfurá-la, após algum tempo com os olhos emitindo o brilho azul que sempre reluziam quando ela estava concentrada, voltava a abrir o livro. Nietzsche era, por vezes, enfático demais, ou ela que simplesmente não tinha parado para pensar do ponto de vista dele. Podia ser tudo uma questão de ponto te vista, mas então Nietzsche devia se contorcer bastante para conseguir tais angulações! [ps.: Alice nunca leu o Anticristo! o/]
A aula terminara e, como era o último horário do dia, todos já se retiravam da sala, mas Alice permaneceu em seu lugar, sem perceber um movimento sequer, ao seu redor. Foi quando lhe abordaram. Deu quase que um salto na cadeira, fechando o livro automaticamente. Apoiou as mãos na mesa. Assustava-se sempre que alguém se aproximava. Com os olhos apagados do brilho de outrora, estudou o aluno a sua frente. Era um sonserino, moreno, bonito, querendo ela admitir ou não.
Só então percebeu que fora a primeira a entregar a poção, e que ainda gritara quando terminara... Só mesmo ela para não notar que deviam ter olhado para ela... Maneou a cabeça para os lados, irritada consigo mesma: – Distração... Soltara, sem perceber... Então olhou para o rapaz, com o olhar já mais iluminado: – É, distração! Eu pus todos os primeiros ingredientes, exceto pelas penas. Distraí-me, foi isso, pensando noutras coisas... Demorei a pôr as penas, e assim que as coloquei, a poção ficou pronta! Respondia sem ar de resposta, mas de indagação. Esperava que o menino lhe explicasse o que acontecera, porque ela não sabia dizer. Mordeu os lábios, não diria a ele que pensava em sonserinos quando a poção deu certo. Apenas desviou o olhar, com aquela timidez tão singular da menina.
Severus olhou para a garota como se o que ela acabasse de lhe dizer fosse algo terrível e sem sentido algum.Ele era totalmente apaixonado por Poções, era a sua matéria favorita.Como alguém poderia simplesmente ter sorte e conseguido fazer uma poção complicada e trabalhosa em tão pouco tempo e ainda por distração?!Era algo quase absurdo. Mas Severo não disse nada. Assentiu com a cabeça e anotou as observações, em seu livro, do que acabara de ouvir. - Muito inteligente de sua parte, Calligaris, você tem algum parente alquimista?Vai ver que esta no seu sangue. – Piscou para ela, pegou aquela mão macia e beijou.Antes de sair da sala ele deu mais uma olhada na menina e saiu.
Alice ainda evitava olhar para o rapaz, talvez por isso não percebeu a repulsa no olhar do rapaz, ou simplesmente, não percebeu porque nunca percebia nada. Mas observou-o anotar no livro sabe-se-lá-o-quê e começou a sentir-se um pouco boba. Foram lhe perguntar como ela fizera a porção e ela não lhe cedera nada de útil. Mas fez uma nota mental de sempre esperar um pouco antes de pôr as penas. Não pôde captar qualquer entonação ou intenção na voz do rapaz, e ficou sem entender o que ele quisera dizer. Calou. Preferia não mencionar nada sobre seu sangue ou seus parentes. Mas se não lhe falhava a memória, tia Gertrudes estudara química, muitos anos antes de enlouquecer. Será que tinha qualquer relação com ela? Hum, esperava que não. Fora desperta de seus devaneios com um leve beijo na mão, ao qual não soube como reagir. Olhou-o, interrogativa, e o viu piscar. Nada esclarecedor. Assistiu a o menino deixar a sala, e coçou a cabeça quando ele fechou a porta.
Ainda permaneceu na sala por quaisquer minutos, não queria encontrá-lo na saída da masmorra. Foi então que aquele zelador, Filch, expulsou-a de lá, o que não a surpreendeu. Desceu as escadarias muito lentamente, era horário de almoço, então, e ela não tinha fome, que dirá pressa. Pretendia vagar pelos corredores até a próxima aula, ou esconder-se na biblioteca. Retirou da pesada mochila o livreto de Nietzsche, pretendia ler enquanto andava, mas seria habilidade demais para uma menina tão otária. Sem mesmo notar-se, atirou a mochila no chão e sentou-se, num corredor qualquer, encostou-se na parede e foi absorvida pela leitura, completamente alheia a seu paradeiro ou ao tempo que passava ali. Esta sim era a grande potência de Alice, mesmo que não tivesse qualquer carga genética envolvida, devanear e esquecer-se do mundo, deixando que este também se esquecesse dela.
O livro não era muito grande, mas a linguagem e o conteúdo eram um pouco pesados, e ela precisava de muito tempo para compreendê-lo em todo. Fechou o livro e os olhos, refletindo sobre o que acabara de ler. Como aquele cara era complicado... Sua cabeça começava a doer, nisso que dava ler livros pessimistas. Mas o brilho, o brilho azul emanado por seus olhos quando esta se punha a pensar, iluminou o corredor quando ela abriu os olhos, voltando-se para o livro.
Logo que saiu da masmorra, Severus esbarrou em Lucius que o convidava para ir jantar, mas ele não estava muito afim. Ele contou para Lucius sobre a poção, mas Lucius nunca se interessara muito nessas coisas: - Fala sério, cara, já acabou a aula e eu to com fome e nem um pouco interessado em falar de estudo... Blérg! - Não era nenhuma surpresa, Lucius nunca foi interessado em estudar, se não fosse pelos seus pais, ele nem estava na escola. Passava uma garota loira com a roupa da Sonserina, no corredor, era Narcisa. Severus olhou para Lucius, que, agora ajeitou a gravata: - Severus, como estou ? - Ta ótimo, cara. - E deu um tapa de leve nas costas de Lucius, ele sabia o quanto ele gostava daquela garota. Severus deu a volta, não queria ver aquela cena e mesmo assim, não estava com fome. Ele até pensou em descer as escadas e ir para o salão comunal, só para conversar com os amigos mesmo, mas não estava muito afim. Voltou a subir e ficou batendo perna pelos corredores e olhando em volta. Não andara muito e vira a mesma menina da aula de Poções. Era Alice. A menina estava lendo um livro não muito grande que Severus não reconhecera. Ele ficou olhando-a por um momento, virou-se para um lado e voltou a olhá-la: - Tudo bem, Calligaris?
Sentada próxima à parede, Alice inclinava-se cada vez mais sobre o livro, encolhendo-se e fechando-se em sua concentração. A mente trabalhava febrilmente, e era quase possível perceber que as páginas do livro estavam mais iluminadas pelos olhos de Alice que pelas velas no corredor. Absorta em sua leitura, assustou-se quando abordada. Ela era campeã em sobressaltos e até gritinhos, não somente por ser a aluna mais otária do colégio até o dado momento, mas porque não costumavam ir lhe falar. Eram muito raras, as vezes em que ouvira a voz de alguém, desde que mudara de colégio, referindo-se a ela, então, quase que escassas. Reconhecendo o rapaz da aula de poções, com quem não pretendia encontrar-se até a próxima aula de poções, fechou o livro rapidamente. O autor – que já não fora muito bem recebido com suas verdades pessimistas e enfáticas - era trouxa, nada convidativo para um sonserino, nada mesmo – ponderou - O que foi que ele disse? Ah, “tudo bem, Calligaris?”, certo...
Meneou a cabeça positivamente. E murmurou um “sim” indeciso. – Mas sem fome... Não vai comer, garoto-da-aula-de-poções? – Não sabia o seu nome. Ou sabia, mas não tinha memória o suficiente para lembrar. Se duvidasse, não lembrava nem da última palavra lida n’O Anticristo antes de o rapaz chegar. Seu nome, o colégio inteiro sabia só porque era novata, mas muito em breve seria esquecido. Seus lábios tracejaram um delicado sorriso, ela não pretendia parecer tão desconcertada quanto realmente se sentia. Seus olhos emanavam, ainda, aquela luz azulada estranha. Exatamente o que ela torcia para que não estivesse acontecendo. Por precaução, evitou olhar para o rapaz, abaixando o olhar até o chão. Não sabia em que corredor estava, mas só então percebeu que se sentara e que estava lendo ali mesmo. Levantou-se guardando o livro dentro da mochila, e começou a enrolar uma mecha de cabelo nos dedos.
Livre sinal, para os poucos que a conheciam, de que ela estava, no mínimo, nervosa. Nervosa era o mínimo a se dizer, ela realmente tinha medo de pessoas, de sonserinos mais ainda. Aguardava ansiosamente pelo término dos anos acadêmicos para, enfim, poder manter-se reclusa e sozinha. Na segurança de sua casa, ou de um quarto de hospício, que fosse. Mas evitaria ficar com a imagem de lunática em Hogwarts também. Percebeu então, que pegara justamente uma das mechas que Hillary encantara, e que estava cor-de-rosa desde então. Tentando ser discreta, deixou a mecha de lado e pegou outra, uma loira. Odiava aquelas mechas espalhadas por todo o cabelo, mataria Hillary, um dia, por ter lhe feito aquilo, mas receava ter ficado por tempo suficiente com ela na mão, e que o rapaz já a teria visto. Um riso fraco acompanhou suas conclusões. – Como te chamas? – Perguntou, quase naturalmente.
Era um Severus Snape, também não sei o nome dele.
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