Como assim? Dapnhe Greengrass? A medi bruxa? A mulher que está namorando meu pai? Aqui? Em Hogwarts? Pra quê? – As interrogações saíam em disparada pela boca de Violet... Parecia uma metralhadora, espalhando no ar as indagações que a confundiam. Era tão irreal! O que aquela mulherzinha fazia ali?! Ai se fosse mais alguma enviada para 'acalmá-la'! Acabara de tomar conhecimento, tardiamente pra variar, de que seu pai estava se tratando 'sabe Merlim do quê', às escondidas no Hospital St. Mungus; ele sempre a mantinha informada sobre cada passo que ele decidia tomar, e, como retorno, Violet fazia o mesmo. Sentia-se confusa, e amargamente traída. Deixou-se arrastar pelas escadarias que mudavam de lugar a todo o momento, se não estivesse acompanhada, teria, com toda certeza, despencado do último andar. A enfermeira de Hogwarts, Madame Pomfrey, a guiava pelo braço na direção da sala onde a medi bruxa se encontrava, à espera da menina. Seria a primeira vez que se veriam cara a cara, de frente; Violet sentia os pés pesados, a vista turva, de tanto gritar - a cabeça começava a doer. No entanto, no momento que a porta se abriu, e a enfermeira praticamente a empurrou para dentro, Violet Nott se recolheu a uma calada rara de sua pessoa... Era o típico silêncio que protesta; a contragosto, e muito custo, ergueu o rosto para encarar a mulher... Por muito pouco não se sobressaltou ao captar o olhar da mulher: de repente, sentiu uma energia estranha e pesada no ar... Havia algo de errado ali, naquela sala, e, principalmente, naquele semblante abatido de Greengrass, que não fugiu da rápida percepção da mocinha.
Daphne andava de um lado para outro na escura sala para onde a levaram... Ainda não havia descoberto um modo de contar a Violet notícia tão delicada e continuava destruída. Sentia-se definhar de dentro pra fora, apodrecer lentamente e a retina secar. Todas essas sensações ruins de que ela seria corroída da ferida em seu coração até a carne mais exposta lhe fizeram esquecer de que nunca tinha conhecido a própria enteada.. Não sabia nem se Violet já soubera do casamento. Parou de andar e ocupou-se em retirar todas as cadeiras ao redor da mesa de madeira fina que se encontrava no meio da sala. Deixando apenas duas, nos cantos mais extremos do retângulo – onde julgou mais seguro para ambas as mulheres. Mulheres... Da última vez que vira Violet, esta era um pequeno bebê ensangüentado em suas mãos. Daphne não olhou-a mais que uma vez, entregou-a a uma enfermeira e deixou a sala evitando olhar para a mãe também.
Agora, lá estava Daph. Tendo que contar a Violet que seu pai morreu. Imaginava um encontro mais ameno para as duas, ou não imaginava encontro nenhum... Após tantos anos de medicina, ainda não aprendera a lidar com a morte. Morte... Morto... Theodore Nott. As senações de putrefação voltam e refletem-se no seu olhar. Ela senta-se na cadeira disposta a chorar quando a porta se abre. É agora ou nunca, Violet chegou.
Tentando recompor-se à tempo, forjando um semblante neutro de última hora. Não queria parecer frágil aos olhos da pessoa a quem dedicaria sua vida daquele dia em diante. Indicou a cadeira na outra extremidade muito séria, tentando fazer a Doutora prevalecer sobre a viúva.
Havia sinais por toda a sala. Duas cadeiras localizadas no centro, postadas uma de frente a outra, era a indicação que ambas deveriam sentar-se ali, cara a cara, para enfrentar uma realidade que ambas esforçavam-se para ignorar. Violet enrijeceu os músculos com a visão, sua mente - apuradíssima para detectar sinais de todo o tipo, trabalhava febrilmente, e, provavelmente por isso, não proferiu nenhuma palavra de cumprimento ao erguer o rosto e encarar a 'madrasta' nos olhos, com uma firmeza inapropriada pra ocasião, olhares firmes transmitem desafios...
Começou a sentir frio, arrepiou-se com a nítida sensação de mau agouro, o prelúdio do pesadelo que ainda não fazia idéia de que iria enfrentar.
- Ficarei em pé. - Anunciou, como se a determinação de manter-se de pé pudesse afastar o mal pressentimento; como se a mudança de posicionamento pudesse alterar de alguma maneira a mensagem que Daphne viera trazer. Havia algo de errado com ela, com a súbita serenidade em seus olhos, algo que Violet tinha certeza de não ter encontrado ali quando os capturou pela primeira vez.
- Você é irritantemente óbvia. - Sibilou a acusação. De fato, Daphne Grengrass, irmã de sua madrinha, uma pessoa que fazia parte do grupo de amigos íntimos de seu pai... uma pessoa próxima era algo previsível demais para Violet, que acostumara-se em as complexidades dos fatos... as coisas simples eram as mais difícies de serem aceitas. Por reflexo, abraçou-se repentinamente, querendo espantar o frio psicológico pelo clima tenso, ou quem sabe, para passar a mulher o recado corporal para que mantesse distância, pois não lhe agradava nem um pouco a idéia de tê-la por perto... Maldita usurpadora.
- A que veio, afinal? - pressionou, estreitando os olhos azuis, tão semelhantes ao do pai. Dessa vez, foi traída pela voz, que escapou trêmula de sua boca, denunciando toda angústia que ía em seu íntimo.
Talvez não tão óbvia quanto gostaria de ser. Quando estendi o braço, quis dizer ‘Sente-se’. - Dessa vez, não se mexeu, apenas fitou a menina a fundo em seus olhos... Daph terminava rude quando se sentia ameaçada. Entristeceu-se por começar assim com a menina, só tendia a terminar pior, mas fora decisão da garota, ela só respeitara. Ela cruza os braços... Com a apreensão das velhas famílias desfalcadas a quem já dei notícia parecida tantas vezes... Eu sou sua única família agora.
Manteve o semblante neutro e esperou que a menina se sentasse enquanto fitava a mesa, a olhava com tal intensidade que poderia atravessar a tábua com o pensamento. Mas pensamento nenhum lhe passava pela cabeça agora. Apenas as semelhanças de Theodore e Violet, sobre as quais não poderia pensar ali. Precisava dar a notícia e partir, sentia suas forças esvaindo-se... Mal sabia a quem recorrer. Mais pensamentos invasores.. Porque sua vida com Theo fora tão conturbada? Porque não aproveitaram melhor o tempo que tiveram... Porque experimentara a perda do pai e ainda assim se propunha a errar do mesmo jeito com a filha? Astoria fora petrificada pelo tempo e a menina, com seu ódio, era a única família com qualquer sentimento a quem Daph poderia se agarrar.
Descruzou vagarosamente os braços, deixando que eles caíssem ao lado do corpo. Desviou os olhos na direção das cadeiras que Daphnne indicara, pedindo que ela se sentasse. Por merlim, pra quê tanta insistência com algo tão estúpido? Violet fixou o olhar na cadeira, os apertou com força, e no tempo de alguns segundos, a cadeira levitou e foi empurrada por uma força invisível até a outra extremidade da minuscula sala. Porém, a força que Violet empregara no feitiço foi tanta, que a cadeira acabou por bater na parede e cair, ocasionando um estrondo que a despertou, deixando-a novamente sóbria, obrigando-a a voltar os olhos pra mulher.
- Isso é estúpido. – Explodiu, levantando as mãos pro alto. Lentamente, as mãos desceram até o rosto, e violet começou a passar as mãos pelo rosto, pelo cabelo; estava irritada, e os gestos ansiosos eram a advertência pra si, e pra Daphnne.
- Você realmente acredita que se sentarmos uma de frente pra outra, fingindo um ar civilizado, alguma coisa irá mudar? Irá melhor? hein? Por Merlim, fale logo a que veio, e vá embora. – Continuou. Já não mais gritava, mas também não mais escondia o tremor em sua voz; o medo estava estampado em seus olhos. Ignorando as regras que ela própria impusera, Violet avançou até Daphne até ficar próxima de seu corpo. A enfrentou com os olhos, queria tentar ler neles a razão praquela situação ridicula que estava obrigando-a a suportar.
- Fale! Vá mudar alguma coisa se começarmos a encenar ? Eu sei que vc não está aqui de livre e espontânea vontade. O meu pai te mandou, não foi? DIGA! Alterou o tom, citou Theodore. Já não aguentava mais se controlar, já entrara fervilhando na sala. Não estava disposta a ser civilizada, a dá amostras da educação que seu pai lhe dera. Não tinha obrigação de ser agradável, e não o seria.
Daphne assistiu à corrida da cadeira com tal calmaria que parecia que iria rir. Theodore - Pensou. – Com que propósito eles agem assim? Com a mesma forjada calma e fingida boa vontade, Daphne levantou-se para encarar a menina com igual prepotência. Encarou a menina nos olhos por alguns instantes, repensando tudo... O porquê de ir ali. E então, no azul dos olhos.. Reconheceu mais uma vez a pessoa que ela mais amou e todas as promessas que fez a ele.
Olhá-la como se fosse minha filha, amá-la como se fosse parte de mim. Por esse momento, odiou-a. Mas não poderia odiar alguém que ela mesma trouxe ao mundo por mais de um minuto. Pensou em ir embora, pensou em atirar Violet contra o monte de cadeiras, e só aí reconheceu tal sensação: Quantas vezes já não quis atirar Theo contra um monte de cadeiras, um monte de rochas, contra um abismo sem fim? O mesmo tanto de vezes que o quis de volta pra si. Acalmando-se, sentiu novamente aquela dor que aquele nome lhe trazia e que lhe traria ainda muitas vezes.
- Já que falamos em estupidez... Você pode me responder mais tarde porque me tratar assim lhe fará sentir melhor. A mulher sorriu, um sorriso que se desfez em segundos... Atropelado pelo maldito semblante equilibrado, que era obrigada a adotar nessas situações... – Seu pai não me mandou, mas se não fosse por ele... Eu realmente não estaria aqui. Não pense, garota, que eu pretendo me fazer de civilizada ou de sua amiga. Mas as circunstâncias que me trazem aqui exigem, sim, certo profissionalismo e alguma paciência. Pela última vez, lhe peço que se sente antes de começarmos a falar.
Dito isso, puxou a cadeira onde estava sentada e ofereceu-a para a garota, sentando-se sobre a mesa em seguida. As pernas soltas balançavam com certa ansiedade e os braços a apoiavam com uma firmeza certamente hipócrita, mas que lhe ajudaria a não desabar em lágrimas na frente de ninguém. Já acomodada e sem voltar a fitar Violet, tornou a falar: – Preciso que me conte o que você sabe sobre minha relação com seu pai, e o que eu vou ter de contar. Então prometo te esclarecer tudo o que você deve estar esperando saber há algum tempo. Finalizou, tentando disfarçar o medo que tinha de saber da opinião de Violet sobre ela. Quase estremeceu, ela que nunca se importara com a opinião de ninguém.
Violet encarou os olhos cor de mel da mulher com extrema frieza. Lançou-lhe um olhar impassível, tomou o cuidado de não transparecer mais nenhuma emoção. Sentia-se cansada, verdadeiramente fatigada, e não queria perder preciosos momentos naquela discussão sem fim. – Já que faz tanta questão, eu me sento. – concordou de má vontade. Desejava apenas encurtar o tempo daquela conversa. Fazia questão de ignorá-la deliberadamente, tanto que, mal entendera o comentário breve que ela fizera sobre seu pai , enfim, a garota não estava disposta a dar-lhe atenção.
– Eu não sei absolutamente nada, e é exatamente isso que me incomoda. Soube do namoro de vocês, através do Scorpius, sim, teu sobrinho adora uma fofoca. – Contou, erguendo o rosto pro alto e rodando os olhos. Largou-se na cadeira que Daphne indicara - só depois de alguns segundos que consertou a postura, cruzou a pernas, e fitou, sem prestar atenção, o quadro acima da cabeça da mulher. Era o único adorno existente na rústica sala. – Fale, Greengrass. Fale logo de uma vez. O que você quer comigo, afinal? – Mordeu as paredes da bochecha; estava nervosa: tinha captado a energia estranha no ar a minutos atrás, mas fingia que fora apenas impressão, não iria mais transparecer nenhuma emoção, não valia a pena gastar energia com aquela mulher.
Nott. – Começou corrigindo-a, o que a fez sentir mal. Não tinha idéia de como dizer de forma delicada que era tudo o que restava à garota. Uma mulher completamente estranha e ‘irritantemente óbvia’. Apoiava o cotovelo sobre o joelho, o queixo sobre a mão, enquanto ouvia a menina, mas não conseguiu conter os braços e os envolveu fortemente contra si antes de se explicar. Fechou os olhos com força e desejou que Violet não a estrangulasse após o que ela iria dizer, soltou um pouco rápido demais, mas toda aquela demora a estava deixando mais angustiada. – Eu e seu pai nos casamos, Violet, há cerca de 5 meses, mas eu não perguntava de nós dois... Preciso saber o que sabe da saúde de seu pai. Eu sei que você deve ter ouvido falar de alguma coisa, logo ele... Não conseguiria esconder nada de ti. – Parou por ali, sentia que não conseguiria dizer mais nada. Como poderia sentir-se traindo uma pessoa que nem conhecia? Mas a questão é que foram tantas promessas e discussões acerca de Violet, que parecia quase que surreal estar contando-lhe uma coisa daquelas. E se ela não aceitasse com facilidade, a quem iria recorrer? E se Daphne não fosse capaz de amá-la, protege-la, guarda-la? Tudo lhe pesava naquele momento. E sentia que cada palavra de Violet iria cortar-lhe, ainda mais, a ferida já aberta por Theo em seu leito de morte.
Como?! – Num primeiro momento a menina estranhou a correção. Franziu a testa, pendendo a cabeça pro lado, num gesto de confusão. Porém, a explicação não tardou a vir, e o rosto de Violet se contorceu numa careta de perplexidade, mal teve tempo pra reagir, e Daphne já emendara a pergunta sobrê a saúde de se pai, o quanto ela estava 'por dentro' do estado dele.
– Oh, sim, ele não consegue esconder nada de mim. Ele se casou há cinco meses, e bem, isso não é uma notícia importante o suficiente para eu saber! – Apesar da preocupação, não conseguiu reprimir a observação irônica. As mãos que mantinha cruzadas encima do colo tremiam, e Violet não fazia idéia de como se portar, de como disfarçar toda revolta que lhe ía no íntimo. Foi então que sua mente clareou, talvez fosse o instinto, mas algo a despertou para a seriedade do momento... – Meu pai está doente? E você como médica veio me contar? Oh, que gentileza. – Agora era a vez de os lábios secos da menina tremerem, já não conseguia mais definir a razão de sua raiva, por quem exatamente era. Fez um movimento brusco ao mudar de posição na cadeira, e seus cabelos desprenderam-se do nó que fizera no topo da cabeça, e caíram displicentes até o meio de suas costas. Seus olhos azuis voltavam-se totalmente em direção aos olhos cor de mel da mulher. Estava interessada agora, iria cobrar todas as informações a que tinha direito de saber!
Daphne fechou os olhos por um segundo, então Theodore nem Scorpius haviam dito nada mesmo à menina. Por mais um instante, odiou-os. Apertava a madeira contra os dedos como se fosse arrancá-la da mesa, mas usou de discrição e não acha que a menina perceberia. De sua garganta, a voz parecia ter sumido, mas não importava.. Teria de sair agora: Violet, seu pai esteve muito doente nos últimos anos... Ele me procurou há 8 anos para iniciar um tratamento e, é por isso que parecemos tão próximos. Mas ele já sabia que não... – Fez uma pausa lenta. Nunca mais tinha parado para pensar nisso. Ele já sabia, ela já devia esperar... Ela já devia tê-lo esquecido no dia em que Violet nasceu. – Entenda que tudo o que ele queria.. Era te proteger. Ele sempre soube que esse tratamento não o curaria, mas ele quis viver pelo menos até que você estivesse grande o suficiente. Ele... Ele me fez prometer que eu cuidaria de você caso o tratamento não adiantasse mais. – As pernas já balançavam violentamente sob a mesa, revolver tudo aquilo era como assisti-lo morrer novamente, sua voz parecia rasgar-lhe a garganta, mas não tremia, o que já era o suficiente. Fez mais uma pausa antes de chegar ao ponto onde já devia ter chegado há muito tempo. Casamos-nos apenas por que... Não havia mais resposta do organismo dele e uma hora ou outra... Acabaríamos apenas eu e você. - Após tanto tempo fitando o chão ou o nada, ergueu o olhar até o da menina, procurando encontrar-se, quem sabe. Temia demais a reação da garota, mas... Agora, de nada adiantaria. Falar ou não, calar não o traria de volta à vida. Sem desgrudar os olhos da menina, declarou quase que atropelando-se: - Violet, seu pai acaba de falecer, no St. Mungus, durante uma consulta emergencial que ele mesmo marcou... O atestado de óbito já foi direcionado ao Ministério e... A partir de ontem, eu sou a sua tutora legal.. Como sua madrasta. – Ao término da sentença, mordeu os lábios com tal força que quase os feriu. Desviou o olhar da menina, num misto de vergonha e culpa. Ela era a médica! Ele morreu em seus braços e ela não poderia fazer nada para impedir! Sentia-se tão incompetente e insegura que a pior reação de Violet só a faria sentir-se redimida. Agora tinha chegado a um fim. Tudo o que viera dizer, já disse, com relutância. E nada poderia fazer para conseguir perdão ou confiança da enteada. Só então surgiu, quase que inundado pela dor da perda, o amor incondicional que sentia por Violet, nunca havia percebido... O quanto ela importante para Daphne. Estava decidida, iria agüentar toda a raiva da menina, mas faria de tudo por ela.
(Theodore Nott faleceu. Decorrência de problemas pré-existentes no pulmão, porém, mal teve ínicio o tratamento que o empresário fazia 'escondido' nas salas do Hospital St. Mungus, as complicações vieram, sem explicações coerentes e razoavéis, sem nenhum 'por que’.)
(Violet Nott é 'interpretada' por Juliana Moreira, minha autora preferida!)
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