segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

O Novo Conto da Maçã

Certa vez, um pastor encontrou, escondido numa gruta, o Livre-arbítrio. Até ali, tudo o que ele tinha feito era vagar pela terra, desempenhando a sua função na sociedade, como lhe foi designado, e temendo aos deuses do Olimpo, como não podia deixar de ser. De posse do livro-arbítrio, decidiu - e essa foi sua primeira decisão - entrega-lo à humanidade. Distribuindo-o igualmente, em forma de liberdade. A humanidade, de posse dele, fez – e essa foi a sua primeira reação - coisas muito ruins. Com base no poder e na força, destruiu a igualdade que residia em seus lares, a ganância e a violência são algumas consequências. E para castigar a humanidade, Hera* a privou, por tempo indeterminado, da razão de viver. A deusa Atena foi completamente afastada dos seres humanos, por achar a decisão de Hera cruel demais. Mas não resistindo a tentar lhes contar o segredo, deixou uma mensagem no ventre de cada mulher. De modo que toda criança traga consigo uma inspiração da Deusa. E assim nasceu o porquê. A humanidade, para recuperar seu sentido, precisa restabelecer a igualdade adormecida e aniquilar os novos monstros que aprisionam nossa consciência: a Ignorância, a Dúvida e o Vazio. O porquê é a única arma que temos na luta pra resgatar o Sentido, perdido no espaço.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

A Conta

    A conta é um objeto miúdo, redondo, colorido ou não, bonito sempre, definido pelo dicionário por “miçanga”, mas o dicionário não entende nada de contas.
    Essa era ousada, a que estava na minha mão. Olhou-me meio ladina, me destratou, não gostei dela, não. Foi pro chão. Foi lá que ela começou a girar, e o brilho dela foi ficando mais intenso, e estava claramente irritada, mas eu não aceito provocação. Com a ponta fina do escarpam dei-lhe um leve toque, um empurrãozinho, e a conta voou para a escada, e ela girava enquanto o fazia, queria me desfilar suas acrobacias, penso que fiz até mal em dá-la tanta liberdade.
     Chegando à escada, aí que a pequena me espantou. Ensaiou um pulo rumo ao andar de baixo, voltando, amedrontada – aposto. Agora ela girava em torno de si e em torno do nada que precedia a escada, estando na iminência de cair por várias vezes, unicamente para que eu me assustasse. A Conta pensa que eu ia sentir-me mal por tê-la chutado, ai conta miserável, pois eu queria era ver a queda. Ajoelhei perto da escada e assisti – visão aérea – ao espetáculo da conta saltitante, que começando a ficar oscilante, decidiu por saltar de vez.
    E foi um salto mortal, daquele de ginasta em olimpíada, que solta um “ó” da platéia que, no caso, era eu – de boca entreaberta. Por isso que conta não participa de competição! Sempre tive essa curiosidade, e mamãe nunca soube responder. Deu cada cambalhota rumo ao degrau seguinte que eu cheguei a me arrepiar. E conta não morre, não? Não tem dor de cabeça, não sente enjôo de rodar assim? Porque eu me rendo logo, mais às dores do que à morte, felizmente.
    A seqüência de arcos que ela descreveu no ar, eu não sei descrever no papel, mas posso afirmar que foram muitas e muito graciosas. Meus olhos as descreveram ao mesmo tempo, não desgrudavam da tal da continha. Fato que eu não percebi na hora, mas que deduzi por fim, é que eu me levantei e fui descendo a escada ao passo – ao salto – da Conta, porque quando ela concluiu sua apresentação, eu já estava lá na sala, vendo-a girar pelo chão até bater no rodapé e rodopiar em direção ao espelho. O que foi mais um de seus saltinhos, como é que um rodapé ia atirar uma conta sobre a penteadeira da sala?
    O que sei é que ela chegou lá, e olhou-se pálida, perolada, e desequilibrada. Pareceu um passo falso, e ela tornou a cair. Aí sim, ela me olhou mais expressiva, era o sonho da Conta, coitada, e eu pensando que ela era desaforada mesmo, só queria atenção e espaço pra ter seu próprio espetáculo descrito de forma sucinta e prática, mas memorável. E na queda ela terminou de me embasbacar, e girou e caiu e quebrou e fez tudo o que uma conta não faz por um conto.

N.A: A autora nunca dialogou qualquer ser inanimado, parece gozar das perfeitas faculdades mentais e, particularmente, não gosta de contas.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Sophie

Ficava dentro de uma casa, como não podia deixar de ser. Uma casa de taipa, cuja madeira pintada de azul encontrava-se descascada e corroída pela traça do tempo. A sala era pequena e entupida de sofás, onde nobre cavalheiros como eu esperavam a própria vez. Ou a minha vez. Quem sabe se eu caísse morto e desistisse… Mas a sala já havia sido atravessa, tal como o corredor estreito, de onde ouvia-se a gota de chuva socar as telhas e beijar suavemente as janelas. Uma senhora de boca de peixe e que cheirava a perfume francês falsificado me guiou até sua porta. E das frestas já saiam luzes rosa-avermelhadas. Sophie abriu a porta silenciosa, e moveu-a lentamente, para que eu me adaptasse ao ambiente que surgia na minha frente, tão distante da madeira azul e das gotas de chuva. As paredes cor-de-rosa seriam mais claras não fossem os lenços que envolviam o lustre, formando feixes de luz róseos, rubros e alaranjados. Estes coloriam a mobília e os lençóis da maior cama que eu já vi. “Um cliente por vez, hein?”. Mas nem cor nem móvel daquele quarto me tiraria a atenção de Sophie. Dos seus olhos grandes e escuros, tão infantis que te levam a perguntar o que ela faz nessa vida. Seus cabelos eram negros, ainda assim mais claros que os olhos. Com certo volume e comprimento até a cintura, emolduravam uma escultura de mármore. tão branca e bem talhada que mais parecia a própria Afrodite, coberta de seda japonesa, para nos afogar em curiosidade. Ao passo que dei para dentro do quarto, exibiu um sorriso tímido num semblante triste. Por mais cativado que estivesse por seus olhos de menina, maior era a certeza de que, se essa era a vida dela, nunca mais gastei dinheiro tão bem empregado!